Artigo

DOI: https://doi.org/10.62009/bemviver.2764.9679n1/2026/575/p20-36

Instrumentos para mensuração de habilidades de vida: uma revisão sistemática das evidências psicométricas

Leila Gracieli da Silva
Faculdade Alfa Umuarama (Unialfa)

Daniela Ribeiro Schneider
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Resumo

As habilidades de vida são um conjunto de competências sociais, cognitivas e emocionais importantes para a promoção da saúde, a prevenção de comportamentos de risco e o desenvolvimento humano. Com a ampliação de programas voltados ao ensino dessas habilidades, cresceu também a necessidade de instrumentos válidos e confiáveis para avaliá-las.

Este estudo teve como objetivo analisar as evidências psicométricas de instrumentos desenvolvidos ou adaptados transculturalmente para mensurar habilidades de vida. Foi realizada uma revisão sistemática da literatura, seguindo as recomendações do protocolo PRISMA. As buscas ocorreram nas bases PsycINFO, Web of Science, Embase, Scopus e PubMed, considerando estudos publicados entre 2016 e 2021.

Ao final do processo de seleção, 17 estudos foram incluídos na revisão. Os resultados mostraram maior presença de instrumentos desenvolvidos em países asiáticos e europeus, principalmente nos contextos esportivo e escolar, seguidos por estudos voltados à prevenção do uso de álcool e outras drogas. A validade fatorial foi a evidência de validade mais utilizada, enquanto a consistência interna foi a principal estimativa de confiabilidade.

Conclui-se que, embora exista interesse crescente na mensuração das habilidades de vida, ainda é necessário ampliar as evidências psicométricas disponíveis e desenvolver instrumentos que possam ser aplicados em diferentes contextos e populações.

Palavras-chave: habilidades de vida; revisão sistemática; psicometria; validade; confiabilidade.

Abstract

Life skills comprise a set of social, cognitive, and emotional competencies that are essential for health promotion, the prevention of risk behaviors, and human development. As programs aimed at teaching these skills have expanded, so too has the need for valid and reliable instruments to assess them. This study aimed to analyze the psychometric evidence of instruments developed or cross-culturally adapted to measure life skills. A systematic literature review was conducted following the recommendations of the PRISMA guidelines. Searches were performed in the PsycINFO, Web of Science, Embase, Scopus, and PubMed databases, considering studies published between 2016 and 2021. At the end of the selection process, 17 studies were included in the review. The results indicated a predominance of instruments developed in Asian and European countries, mainly in sports and school settings, followed by studies focused on the prevention of alcohol and other drug use. Factorial validity was the most frequently reported source of validity evidence, whereas internal consistency was the primary estimate of reliability. The findings indicate that, although interest in measuring life skills has increased, further psychometric evidence is still needed, as well as the development of instruments applicable across different contexts and populations.

Keywords: life skills; systematic review; psychometrics; validity; reliability.

Resumen

Las habilidades para la vida constituyen un conjunto de competencias sociales, cognitivas y emocionales fundamentales para la promoción de la salud, la prevención de conductas de riesgo y el desarrollo humano. Con la expansión de los programas orientados a la enseñanza de estas habilidades, también aumentó la necesidad de contar con instrumentos válidos y confiables para evaluarlas. Este estudio tuvo como objetivo analizar las evidencias psicométricas de instrumentos desarrollados o adaptados transculturalmente para medir las habilidades para la vida. Se realizó una revisión sistemática de la literatura siguiendo las recomendaciones de la guía PRISMA. Las búsquedas se llevaron a cabo en las bases de datos PsycINFO, Web of Science, Embase, Scopus y PubMed, considerando estudios publicados entre 2016 y 2021. Al finalizar el proceso de selección, se incluyeron 17 estudios en la revisión. Los resultados mostraron un predominio de instrumentos desarrollados en países asiáticos y europeos, principalmente en los contextos deportivo y escolar, seguidos por estudios orientados a la prevención del consumo de alcohol y otras drogas. La validez factorial fue la evidencia de validez más utilizada, mientras que la consistencia interna constituyó la principal estimación de confiabilidad. Se concluye que, aunque existe un interés creciente por la medición de las habilidades para la vida, aún es necesario ampliar las evidencias psicométricas disponibles y desarrollar instrumentos que puedan aplicarse en diferentes contextos y poblaciones.

Palabras clave: habilidades para la vida; revisión sistemática; psicometría; validez; confiabilidad.

1 Introdução

O desenvolvimento das habilidades de vida tem sido reconhecido internacionalmente como uma estratégia importante para promover saúde, prevenir comportamentos de risco e fortalecer competências psicossociais ao longo da vida. Com a expansão de programas voltados ao ensino dessas habilidades, também aumentou a necessidade de instrumentos capazes de avaliá-las de forma válida e confiável. Esses instrumentos ajudam a avaliar intervenções, comparar resultados e produzir evidências científicas.

As habilidades de vida são necessárias para lidar, de forma construtiva e efetiva, com problemas e desafios do cotidiano (Organização Mundial da Saúde, 1994). Elas favorecem comportamentos de proteção e se relacionam negativamente com comportamentos de risco, como uso problemático de drogas, violência e criminalidade (Kase et al., 2016). Em diferentes contextos, as pessoas tendem a agir de modo mais competente quando conseguem recorrer a essas habilidades (Morales Rodríguez; Benítez Hernández; Agustín Santos, 2013).

A Organização Mundial da Saúde (OMS, 1997) indicou dez habilidades de vida principais: autoconhecimento; empatia; comunicação assertiva; habilidades interpessoais; tomada de decisão; resolução de problemas; pensamento criativo; pensamento crítico; manejo das emoções e sentimentos; e manejo do estresse.

Essas habilidades se complementam. Quando analisadas de forma isolada, perdem parte da força do conjunto proposto pela OMS. Seu desenvolvimento pode apoiar tanto aspectos pessoais, como lidar com emoções e estresse, quanto aspectos interpessoais, como construir e manter bons relacionamentos. Também pode contribuir para a prevenção de emoções negativas e comportamentos problemáticos, além de favorecer práticas de cuidado voltadas à saúde física e mental (Fagan; Mihalic, 2003).

Existem diversos programas destinados ao ensino das habilidades de vida, principalmente em escolas, com crianças e adolescentes (Botvin; Griffin, 2004; Lynch; Styles, 2018; Cocchiara et al., 2020). Também há meta-análises que apontam a eficácia dessas habilidades na promoção da saúde mental (Hooman; Ganji; Omidifar, 2013). Porém, ainda é necessário compreender melhor quais instrumentos existem para mensurar essas habilidades, seja para avaliar intervenções antes e depois de sua realização, seja para identificar repertórios que precisam ser fortalecidos.

Diante desse cenário, este estudo consiste em uma revisão sistemática da literatura. Seu objetivo geral foi analisar as propriedades psicométricas de instrumentos desenvolvidos ou adaptados transculturalmente para mensurar habilidades de vida. Como objetivos específicos, buscou-se: rastrear e apresentar indicadores bibliométricos dos estudos encontrados; mapear os países que produziram instrumentos para essa finalidade; identificar contextos de aplicação e público-alvo; e sintetizar as evidências de validade e confiabilidade dos instrumentos.

2 Procedimentos metodológicos

Para revisar a literatura sobre instrumentos, escalas ou questionários destinados à mensuração das habilidades de vida, foram seguidas as recomendações do protocolo PRISMA, sigla em inglês para Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses1 (PRISMA) (Moher et al., 2009). As buscas foram realizadas entre outubro e dezembro de 2021 nas bases PsycINFO, Web of Science, Embase, Scopus e PubMed, que indexam pesquisas nas áreas da saúde, psicologia e psiquiatria. (Moher et al., 2009). As buscas foram realizadas entre os meses de outubro e dezembro de 2021 nas bases PsycINFO, Web of Science, Embase, Scopus e PubMed, que tradicionalmente indexam pesquisas nas áreas da saúde, psicologia e psiquiatria.

2.1 Estratégias de busca

No levantamento inicial, foram utilizados os seguintes termos: habilidades de vida OR habilidades para a vida; instrumentos OR escalas OR questionários AND validação. Também foram utilizados descritores MeSH em inglês: (1) Habilidades de Vida OR Habilidades para a Vida; (2) instrumentos OR escalas OR questionários AND validação. Os descritores MeSH utilizados foram: (“Life skills”[Title/Abstract] OR “Life skill”[Title/Abstract]) AND (“Instruments”[Title/Abstract] OR “scale”[Title/Abstract] OR “test”[Title/Abstract] OR “tests”[Title/Abstract] OR “survey”[Title/Abstract] OR “surveys”[Title/Abstract] OR “validity”[Title/Abstract]). Os idiomas pesquisados seguiram o idioma principal de cada base de dados.

2.2 Critérios de inclusão e exclusão

Foram incluídos artigos empíricos que construíram, validaram ou adaptaram transculturalmente instrumentos destinados à mensuração do construto “habilidades de vida”. Também foram considerados estudos publicados em inglês, português ou espanhol, entre 2016 e 2021, indexados nas bases PsycINFO, Web of Science, Embase, Scopus e PubMed.

Foram excluídos ensaios teóricos, artigos que não tratavam diretamente da mensuração das habilidades de vida, estudos comparativos, teses, dissertações, livros e capítulos de livros. Também foram excluídos estudos voltados apenas ao desenvolvimento de programas de intervenção ou à avaliação de habilidades específicas, como habilidades sociais ou empatia, quando essas habilidades não eram analisadas como parte do conjunto proposto pela OMS.

2.3 Seleção do corpus de análise

O rastreamento, a seleção e a avaliação de elegibilidade dos estudos foram realizados por duas pesquisadoras independentes. Quando havia discordância, uma terceira juíza era acionada para decidir. As pesquisadoras analisaram, às cegas, títulos, resumos e palavras-chave dos artigos encontrados. Os estudos selecionados nessa etapa foram lidos na íntegra e, depois, incluídos ou excluídos do corpus final da revisão. O coeficiente kappa indicou boa concordância entre as juízas na etapa de elegibilidade (κ ≥ 0,70; p < 0,001; concordância = 75%).

2.4 Extração dos dados

As mesmas pesquisadoras responsáveis pela seleção também realizaram a extração dos dados de forma independente. Em caso de divergência, recorria-se novamente à terceira juíza. Foram extraídas as seguintes informações: autores(as), ano de publicação, base indexadora, delineamento metodológico, população-alvo, contexto de avaliação das habilidades de vida, evidências psicométricas utilizadas, resultados e limitações apontadas pelos(as) autores(as). O processo de seleção dos estudos está apresentado na Figura 1.

2.5 Avaliação do risco de viés

O risco de viés dos artigos selecionados foi avaliado por meio do instrumento Risk of Bias Utilized for Surveys Tool (ROBUST) proposto por Nudelman e Otto (2020). Esse instrumento avalia oito domínios de estudos de levantamento: representatividade da amostra; método de recrutamento dos(as) participantes; percentual de participantes excluídos(as); tamanho final da amostra; apresentação das variáveis sociodemográficas; confiabilidade das medidas; controle do ambiente de coleta; e administração dos dados.2

Assim como nas etapas anteriores, o ROBUST foi aplicado por duas pesquisadoras independentes. Quando havia divergência, uma terceira juíza era acionada. O teste kappa indicou concordância substancial entre as avaliadoras nos oito domínios investigados (κ ≥ 0,80; p < 0,001; concordância ≥ 80%).

1 Tradução: Principais itens para relatar revisões sistemáticas e meta-análises.
2 Tradução: Instrumento de avaliação do risco de viés em estudos de levantamento.

3 Resultados e discussão

3.1 Caracterização dos estudos incluídos

A Figura 1 apresenta a quantidade de artigos em cada etapa da seleção do corpus. Nas cinco bases pesquisadas, foram identificados inicialmente 898 artigos, dos quais 673 eram duplicados. Depois da exclusão de teses, dissertações e artigos com resumo indisponível, 225 artigos tiveram título, resumo e palavras-chave analisados.

Os estudos excluídos nessa etapa foram organizados em três grupos: Programas de Habilidades de Vida (n = 53), Ruídos e Habilidades de Vida (n = 105) e Habilidades de Vida isoladas (n = 47).

Fluxograma da revisão sistemática sobre instrumentos para mensurar habilidades de vida, com as etapas de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão dos estudos.
Figura 1. Fluxograma da revisão sistemática sobre instrumentos para mensurar habilidades de vida. Fonte: As autoras.

O grupo “Programas de Habilidades de Vida” reuniu estudos que tratavam do ensino ou aprimoramento dessas habilidades em diferentes contextos, mas não desenvolveram instrumentos para mensurá-las. O grupo “Ruídos e Habilidades de Vida” reuniu artigos que mencionavam as habilidades de vida apenas de forma secundária, como desfechos em estudos sobre outros temas, por exemplo qualidade de vida. O grupo “Habilidades de Vida isoladas” incluiu estudos sobre habilidades específicas, como habilidades sociais, empatia e resolução de problemas. Embora essas habilidades façam parte do conjunto proposto pela OMS (1997), os estudos não avaliavam o construto de habilidades de vida como um todo.

Na etapa de elegibilidade, foram excluídos artigos de acesso restrito (n = 1), artigos indisponíveis na íntegra (n = 1) e um estudo que avaliou habilidades de vida em conjunto com habilidades não cognitivas (Makransky et al., 2019). Assim, dos 20 artigos que avançaram para a etapa de elegibilidade, 17 compuseram o corpus final da revisão.

Considerando os estudos incluídos, observou-se aumento do interesse pela mensuração das habilidades de vida entre 2019 e 2021, com produção variando entre quatro e cinco estudos por ano. Os países de origem das publicações foram: Reino Unido (n = 3), Índia (n = 3), Irã (n = 2), Estados Unidos (n = 2), Canadá (n = 2), Brasil (n = 2), Japão (n = 1), Rússia (n = 1) e Espanha (n = 1). Ao todo, os estudos reuniram 9.018 participantes, de ambos os sexos, com idade entre 8 e 60 anos. As principais características dos artigos incluídos estão apresentadas na Tabela 1.

A Life Skills Scale for Sport3 foi o instrumento mais frequentemente adaptado transculturalmente (n = 3) (Cronin; Allen, 2016). Também foi identificado um aperfeiçoamento dessa escala, chamado Life Skills Scale for Sport – Transfer Scale (LSSS-TS)4 (Mossman et al., 2021). A Life Skills Assessment Scale5 apareceu em dois estudos porque, depois de sua validação inicial (Pearson et al., 2020), teve suas normas de idade ampliadas (Venkatesh et al., 2020).

A análise metodológica dos estudos mostrou predomínio de pesquisas voltadas ao desenvolvimento e à validação inicial de instrumentos (n = 14), em comparação às adaptações transculturais (n = 3). A população-alvo variou de crianças a adultos, com maior concentração de instrumentos destinados a adultos jovens (n = 6). Não foram identificados instrumentos específicos para avaliar habilidades de vida em crianças ou idosos. A população idosa também não foi contemplada em nenhum dos estudos incluídos, conforme apresentado na Tabela 2.

3.2 Características metodológicas e evidências psicométricas

A análise estatística dos dados foi realizada em softwares específicos. Os mais utilizados foram o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS)6 (n = 5) e o Mplus (n = 4). O grupo chamado “misto” reuniu estudos que usaram mais de um programa, como JASP e Factor.

A Análise Fatorial Exploratória (AFE) foi o procedimento mais empregado, tanto isoladamente quanto em conjunto com outras técnicas. Também foram utilizadas Análise Fatorial Confirmatória (AFC), análises de correlação, Análise de Componentes Principais (ACP), Modelagem por Equações Estruturais (MEE) e Coeficiente de Correlação Intraclasse (CCI).

A Tabela 3 apresenta as evidências de validade e confiabilidade usadas nos estudos, bem como a pontuação obtida no protocolo ROBUST (Nudelman; Otto, 2020). Em relação à confiabilidade dos instrumentos, 10 estudos utilizaram o alfa de Cronbach para estimar a consistência interna. A consistência interna indica se os itens de um instrumento avaliam, de modo coerente, o mesmo construto. Três estudos avaliaram a estabilidade temporal por meio do Coeficiente de Correlação Intraclasse, também chamado de teste-reteste (Souza; Alexandre; Guirardello, 2017).

Os dados da Tabela 3 mostram o uso de diferentes evidências de validade. A mais frequente foi a validade fatorial (n = 9), seguida pelas evidências de conteúdo (n = 3), convergente (n = 3), transcultural (n = 3), de critério (n = 1), de construto (n = 1), preditiva (n = 1), discriminante (n = 1) e concorrente (n = 1). De modo geral, as evidências de validade indicam se o instrumento mede aquilo que se propõe a medir (Souza; Alexandre; Guirardello, 2017).

O protocolo ROBUST foi utilizado para avaliar o risco de viés metodológico dos estudos incluídos (Nudelman; Otto, 2020). Os aspectos mais frágeis foram: coleta de dados em ambientes não controlados, especialmente em coletas on-line; recrutamento de participantes por conveniência; e ausência de critérios de exclusão bem descritos nos procedimentos metodológicos.

Entre os estudos analisados, um atendeu a todos os critérios do protocolo (Cronin; Allen, 2016), 14 obtiveram pontuação entre 6 e 7 itens, e dois alcançaram entre 4 e 5 pontos dos oito critérios avaliados. Ou seja, os resultados da Tabela 3 também confirmam limitações apontadas pelos(as) autores(as) dos estudos incluídos. Entre elas, destacam-se: necessidade de adaptação dos instrumentos para outros países e culturas; ampliação de estudos de estabilidade temporal, como teste-reteste; realização de pesquisas longitudinais; maior equilíbrio da amostra por gênero; redução do uso de amostras de conveniência; maior controle do ambiente de aplicação; uso de diferentes evidências de validade de construto; controle da desejabilidade social e da precisão das respostas em instrumentos de autorrelato; e comparação das habilidades de vida com outros construtos, como habilidades sociais, saúde mental, qualidade de vida e resiliência. Não foram descritos conflitos de interesse nem fontes de financiamento nos estudos analisados.

Quanto aos contextos de aplicação, observou-se predomínio do âmbito esportivo (n = 6), seguido do contexto escolar (n = 5) e da prevenção ao uso de álcool e outras drogas (n = 3). Também foram encontrados instrumentos aplicados no contexto familiar, em famílias nucleares e em serviços de acolhimento institucional (Valeryvna; Valentinovna, 2019), em militares (Ashtiani et al., 2018) e em pessoas com transtornos mentais graves (Chandran et al., 2021).

3.3 Discussão dos achados

A capacidade de manter bem-estar e expressá-lo por meio de comportamentos socialmente habilidosos e adaptativos nas relações com outras pessoas, com a cultura e com o ambiente tem se tornado cada vez mais importante na sociedade contemporânea (OMS, 1994; Chandran et al., 2021). Nesse sentido, o cuidado com a saúde não deve se limitar à oposição entre saúde e doença. O desenvolvimento de habilidades psicossociais também é uma estratégia relevante para promover saúde e construir relações sociais mais satisfatórias (Martínez, 2014).

Os achados desta revisão mostram interesse internacional no desenvolvimento de programas destinados ao ensino e ao aprimoramento das habilidades de vida. Nos Estados Unidos, por exemplo, o programa Life Skills Training (LST) vem sendo desenvolvido em instituições educacionais há mais de duas décadas e tem apresentado resultados consistentes na prevenção do uso problemático de álcool e outras drogas (Botvin, 2004).7

No Japão, o ensino e o desenvolvimento das habilidades de vida são incentivados tanto para crianças e adolescentes em idade escolar quanto para adultos. Isso ocorre porque desafios cotidianos, como o manejo do estresse no trabalho e das relações interpessoais, tornaram-se cada vez mais complexos. Essa necessidade é ilustrada pelo aumento das taxas de suicídio e da rotatividade precoce no trabalho entre adolescentes e adultos (Kase et al., 2016).

Por outro lado, esta revisão não identificou publicações sobre a temática em países do continente africano, embora existam programas baseados no modelo das habilidades de vida. Na América Latina, o Brasil foi o único país com estudos incluídos nesta revisão (Nascimento-Junior et al., 2019; Ciampolini et al., 2021). Esse resultado pode refletir diferenças na distribuição da produção científica internacional e reforça a necessidade de ampliar pesquisas sobre habilidades de vida em contextos socioculturais ainda pouco representados.

Em relação à população-alvo dos instrumentos, destacaram-se adolescentes e adultos jovens, que juntos somaram nove estudos. Esse achado pode estar relacionado às características dessas fases do desenvolvimento, nas quais há intenso crescimento das competências psicossociais. Ainda assim, essa hipótese deve ser interpretada com cautela, pois a ausência de instrumentos específicos para crianças e idosos impede conclusões mais amplas sobre esses grupos.

Nesse sentido, estudos longitudinais podem ajudar a compreender como as habilidades de vida se desenvolvem ao longo do tempo e quais períodos são mais favoráveis para sua promoção.

A análise dos instrumentos encontrados indica a necessidade de maior rigor no delineamento metodológico e na apresentação dos resultados. A descrição clara de todas as etapas da pesquisa, inclusive dos resultados que não confirmam as expectativas iniciais, fortalece as evidências produzidas. Além disso, o planejamento adequado das análises estatísticas é fundamental, pois variáveis mal medidas comprometem a validade das inferências e prejudicam as conclusões sobre os fenômenos estudados (Figueiredo; Silva, 2010).

A Psicometria dedica-se à mensuração de fenômenos que não podem ser observados diretamente, chamados de variáveis latentes ou construtos. Entre eles estão inteligência, personalidade, motivação e habilidades de vida. Essas variáveis são avaliadas por meio de indicadores observáveis e modelos estatísticos. Nesse contexto, a Análise Fatorial Exploratória (AFE) é usada para investigar a estrutura interna de um conjunto de variáveis e verificar se elas podem ser organizadas em um número menor de fatores. Em termos simples, a AFE ajuda a compreender se os itens de um instrumento se agrupam de modo coerente e se representam adequadamente o construto que se pretende medir.

Por meio da AFE, é possível reduzir o número de dimensões necessárias para descrever dados derivados de muitas medidas (Urbina, 2007). Assim, investigar a estrutura fatorial de um instrumento permite verificar se ele representa adequadamente o construto avaliado. Como destacam Figueiredo e Silva (2010), a análise fatorial oferece uma “visão além do alcance” sobre as relações entre variáveis observadas e construtos latentes.

A confiabilidade refere-se ao grau de precisão e estabilidade das medidas produzidas por um instrumento, sendo um dos principais indicadores de sua qualidade (Martins, 2006). Nos estudos analisados, não foram encontradas evidências de confiabilidade por equivalência, também chamada de confiabilidade interobservadores. A consistência interna foi a evidência mais frequente (n = 10). Além disso, três estudos não apresentaram nenhuma análise de confiabilidade.

Em relação aos instrumentos investigados, observou-se coerência entre os procedimentos estatísticos usados e as recomendações da literatura especializada. A Análise Fatorial Exploratória foi a técnica mais utilizada para o desenvolvimento, avaliação e refinamento de instrumentos psicométricos (Floyd; Widaman, 1995; Damásio, 2012).

O uso de diferentes softwares estatísticos pode ser explicado pelo fato de que nem todos os programas oferecem o conjunto completo de análises necessárias para investigar variáveis latentes. Por isso, é comum que os(as) pesquisadores(as) utilizem mais de um software, especialmente quando determinados recursos estão disponíveis apenas em programas comerciais.

3 Tradução: Escala de Habilidades de Vida para o Esporte.
4 Tradução: Escala de Habilidades de Vida para o Esporte – Escala de Transferência.
5 Tradução: Escala de Avaliação de Habilidades de Vida.
6 Tradução: Pacote Estatístico para as Ciências Sociais.
7 Tradução: Treinamento em Habilidades de Vida.

4 Aplicações práticas

Os resultados desta revisão sistemática podem auxiliar pesquisadores(as), gestores(as) e profissionais das áreas da saúde, educação e assistência social na escolha de instrumentos psicometricamente adequados para mensurar habilidades de vida em diferentes contextos de intervenção.

Na Amazônia Ocidental, especialmente em Rondônia, adolescentes e jovens convivem com vulnerabilidades programáticas, sociais e territoriais que podem limitar o acesso a políticas públicas de promoção da saúde e do desenvolvimento humano. Nesse contexto, a avaliação sistemática das habilidades de vida pode ser uma ferramenta importante para planejar, acompanhar e avaliar programas preventivos e intersetoriais.

O uso de instrumentos com evidências psicométricas fortalece a produção de indicadores confiáveis e pode contribuir para ações mais efetivas de promoção da saúde mental, cidadania e inclusão social.

5 Considerações finais

Esta revisão buscou analisar instrumentos desenvolvidos ou adaptados transculturalmente para mensurar habilidades de vida, com atenção às suas evidências psicométricas. Os resultados mostram que há interesse crescente pelo tema, especialmente em contextos escolares, esportivos e de prevenção ao uso de álcool e outras drogas.

Os achados indicam que a validação e a adaptação de instrumentos são processos contínuos. Um instrumento precisa reunir diferentes evidências de validade e confiabilidade para que seus resultados possam ser interpretados com segurança. Nesta revisão, a validade fatorial foi a evidência mais utilizada, enquanto a consistência interna foi a principal forma de estimar confiabilidade.

Também foram identificadas lacunas importantes, como a baixa presença de estudos com crianças e idosos, a concentração de pesquisas em alguns países e a necessidade de ampliar análises como teste-reteste, estudos longitudinais e comparação das habilidades de vida com outros construtos relacionados.

Conclui-se que a mensuração das habilidades de vida ainda precisa ser fortalecida por meio de instrumentos mais robustos, adaptados a diferentes populações e contextos culturais. Esse avanço pode contribuir para o planejamento e a avaliação de programas voltados à promoção da saúde, ao desenvolvimento humano e à prevenção de comportamentos de risco.

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Tabelas

Tabela 1 com características dos artigos incluídos no corpus de análise, incluindo autores, ano, país, tamanho da amostra, idade e instrumento utilizado.
Tabela 1. Características dos artigos incluídos no corpus de análise. Fonte: As autoras.
Tabela com características metodológicas e análises empregadas nos estudos incluídos, como objetivos, população-alvo, software estatístico utilizado e testes estatísticos realizados.
Tabela 2. Características metodológicas e análises empregadas. Fonte: As autoras.
Tabela 3 com medidas de validade e confiabilidade empregadas e itens do protocolo ROBUST nos estudos analisados.
Tabela 3. Medidas de validade e confiabilidade empregadas e itens do protocolo ROBUST. Fonte: As autoras.

Sobre as autoras

SILVA, L. G.: Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestra em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Psicóloga, consultora organizacional e docente do ensino superior. Umuarama, Paraná, Brasil. E-mail: leila_gracieli@hotmail.com

SCHNEIDER, D. R.: Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora Titular aposentada do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professora voluntária do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSC. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: danischneiderpsi@gmail.com

Declarações

Declaração de uso de inteligência artificial (IA): As autoras declaram que foi utilizada a ferramenta ChatGPT-4 para revisão gramatical e tradução do abstract e resumen. A concepção do estudo, análise de dados e conclusões são de inteira responsabilidade humana e foram revisadas pelos autores.

Declaração de conflito de interesses: As autoras declaram não haver conflito de interesses de ordem pessoal, comercial, acadêmica, política ou financeira neste manuscrito.