Artigo

DOI: https://doi.org/10.62009/bemviver.2764.9679n1/2026/569/p8-19

Rede Semear: tecendo sonhos agroecológicos

Cicera Silvania Leite
Rede Semear

Altair Pozzebon
Rede Semear

Ana Paula Alves
Rede Semear

Jair de Oliveira Chaves
Rede Semear

Leonice Pereira de Brito Hendges
Rede Semear

Maria Augusta Cogo
Rede Semear

Poliana Andreine Alves Oliveira
Rede Semear

Resumo

A Agroecologia tem se consolidado como uma importante alternativa para a promoção de sistemas agrícolas sustentáveis, fundamentados na valorização da biodiversidade, dos saberes tradicionais e da organização coletiva das comunidades rurais. Nesse contexto, este artigo analisa a experiência da Rede Semear, constituída por agricultoras e agricultores familiares do Sudeste de Rondônia, buscando compreender como suas práticas coletivas contribuem para a construção da Agroecologia e para a materialização dos princípios do Bem Viver. A pesquisa adota abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e documental de registros escritos produzidos pela Rede entre 2022 e 2026, permitindo compreender os significados atribuídos pelos próprios participantes às suas práticas e formas de organização. Os resultados evidenciam que a Rede Semear ultrapassa a dimensão produtiva da agricultura, constituindo-se como espaço permanente de cooperação, formação, troca de conhecimentos e fortalecimento comunitário. Destacam-se iniciativas como os mutirões, a Feira de Troca de Mudas e Sementes, a valorização das sementes crioulas e a construção de processos participativos de aprendizagem. Conclui-se que a experiência da Rede demonstra que a Agroecologia pode ser compreendida como um modo de vida orientado pela solidariedade, pela defesa da biodiversidade, pela autonomia das famílias agricultoras e pela construção de relações sustentáveis entre sociedade e Natureza, aproximando-se da perspectiva latino-americana do Bem Viver.

Palavras-chave: agroecologia; agricultura familiar; bem viver; cooperação; Rede Semear.

Abstract

Agroecology has become an important alternative for promoting sustainable agricultural systems grounded in the appreciation of biodiversity, traditional knowledge, and the collective organization of rural communities. In this context, this article analyzes the experience of Rede Semear, formed by women and men family farmers from southeastern Rondônia, seeking to understand how its collective practices contribute to the construction of Agroecology and to the materialization of the principles of Good Living. The research adopts a qualitative approach based on a bibliographic review and documentary analysis of written records produced by the network between 2022 and 2026, making it possible to understand the meanings that participants themselves attribute to their practices and forms of organization. The results show that Rede Semear goes beyond the productive dimension of agriculture, establishing itself as a permanent space for cooperation, training, knowledge exchange, and community strengthening. Particularly noteworthy are initiatives such as collective work efforts (mutirões), the Seedling and Seed Exchange Fair, the preservation of creole seeds, and the development of participatory learning processes. The study concludes that the experience of Rede Semear demonstrates that Agroecology can be understood as a way of life guided by solidarity, the protection of biodiversity, the autonomy of farming families, and the construction of sustainable relationships between society and Nature, aligning with the Latin American perspective of Good Living.

Keywords: agroecology; family farming; Good Living; cooperation; Rede Semear.

Resumen

La agroecología se ha consolidado como una importante alternativa para la promoción de sistemas agrícolas sostenibles, fundamentados en la valorización de la biodiversidad, de los saberes tradicionales y de la organización colectiva de las comunidades rurales. En este contexto, este artículo analiza la experiencia de Rede Semear, constituida por agricultoras y agricultores familiares del sudeste de Rondônia, con el propósito de comprender cómo sus prácticas colectivas contribuyen a la construcción de la Agroecología y a la materialización de los principios del buen vivir. La investigación adopta un enfoque cualitativo, de naturaleza bibliográfica y documental, basado en el análisis de registros escritos producidos por la Red entre 2022 y 2026, lo que permite comprender los significados que los propios participantes atribuyen a sus prácticas y formas de organización. Los resultados evidencian que Rede Semear trasciende la dimensión productiva de la agricultura, constituyéndose como un espacio permanente de cooperación, formación, intercambio de conocimientos y fortalecimiento comunitario. Se destacan iniciativas como los trabajos colectivos comunitarios (mutirões), la Feria de Intercambio de Plantones y Semillas, la valorización de las semillas criollas y la construcción de procesos participativos de aprendizaje. Se concluye que la experiencia de Rede Semear demuestra que la Agroecología puede ser comprendida como un modo de vida orientado por la solidaridad, la defensa de la biodiversidad, la autonomía de las familias agricultoras y la construcción de relaciones sostenibles entre sociedad y Naturaleza, aproximándose a la perspectiva latinoamericana del buen vivir.

Palabras clave: agroecología; agricultura familiar; buen vivir; cooperación; Rede Semear.

1 Introdução

A expansão do modelo agrícola convencional na Amazônia, intensificou desafios relacionados à conservação da biodiversidade, à permanência da agricultura familiar e à valorização dos conhecimentos tradicionais. Nesse cenário, experiências agroecológicas construídas coletivamente têm se destacado como alternativas capazes de articular produção de alimentos, sustentabilidade ambiental e fortalecimento das comunidades rurais.

É nesse contexto que se insere a Rede Semear, organização formada por agricultoras e agricultores familiares das cidades de Espigão d’Oeste e Pimenta Bueno, localizado no Sudeste de Rondônia. Sua trajetória evidencia que a Agroecologia ultrapassa a dimensão técnica da produção agrícola e assume características de um processo social fundamentado na cooperação, na troca de conhecimentos e na construção coletiva de soluções para os desafios do campo. A Rede consolidou-se por meio de práticas como mutirões, feiras de troca de sementes, processos formativos e ações comunitárias, fortalecendo vínculos sociais e promovendo formas sustentáveis de produção e organização territorial.

Além da dimensão produtiva, a experiência revela aproximações significativas com a perspectiva do Bem Viver, compreendida como uma proposta ética, política e cultural que valoriza a reciprocidade, o cuidado com a Natureza e a construção coletiva da vida em comunidade. Sob essa perspectiva, produzir alimentos significa também preservar a biodiversidade, fortalecer a autonomia das famílias agricultoras e promover relações mais equilibradas entre sociedade e Natureza.

Diante deste cenário, o presente artigo busca analisar como a experiência da Rede Semear contribui para a consolidação da Agroecologia e para a construção de práticas orientadas pelos princípios do Bem Viver. A análise parte de pesquisa bibliográfica e documental, considerando registros, anotações e materiais produzidos pelos(as) integrantes da Rede. Pretende-se compreender de que forma a organização coletiva fortalece processos de aprendizagem, cooperação e resistência diante das limitações impostas pelo modelo agrícola convencional.

Para alcançar esse objetivo, o texto está organizado em seis seções. Após esta introdução, apresentam-se os procedimentos metodológicos adotados. Em seguida, desenvolve-se a fundamentação teórica e a análise da experiência da Rede Semear, discutindo sua constituição, seus princípios organizativos e sua contribuição para a Agroecologia. Por fim, são apresentadas as aplicações práticas do estudo e as considerações finais.

2 Procedimentos metodológicos

Este artigo adota uma abordagem qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica e documental, articulada à análise interpretativa dos registros produzidos no percurso da Rede Semear. A escolha desse percurso metodológico decorre do interesse em analisar a trajetória de constituição da Rede Semear, seus princípios organizativos e as práticas coletivas registradas em sua documentação, articulando essas evidências com a literatura da Agroecologia e do Bem Viver.

O principal documento analisado consiste em um caderno de memória da Rede Semear, construído coletivamente por seus integrantes entre 2022 e 2026. O material reúne anotações dos encontros, temas debatidos, decisões, planejamentos, atividades desenvolvidas e acontecimentos relevantes da organização. Além dos aspectos administrativos e organizativos, incorpora narrativas, reflexões, afetos, sonhos, esperanças e aprendizados compartilhados pelos participantes, constituindo uma importante fonte para compreender a memória coletiva e o percurso histórico da Rede. Trata-se de um documento interno, produzido pela própria organização e disponibilizado para fins desta pesquisa.

Por acompanhar de forma contínua a trajetória da Rede Semear, esse material documental foi adotado como fonte primária da investigação. Sua análise possibilitou compreender a constituição da organização, seus princípios orientadores, as práticas coletivas desenvolvidas e os processos de construção da experiência agroecológica, em diálogo com a literatura especializada.

Foram utilizados, como principais referenciais analíticos, os estudos de Altieri (2012), Gliessman (2015), Caporal e Costabeber (2004), Primavesi (2016), Acosta (2016), Gudynas (2011), Leff (2015), Porto-Gonçalves (2017) e Freire (1996), cujas contribuições subsidiam a interpretação da experiência investigada a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

A análise foi conduzida por meio de uma leitura interpretativa de inspiração temática, aberta às marcas do próprio material. Em vez de aplicar categorias rígidas previamente definidas, buscou-se acompanhar os temas que apareciam com mais força nos registros, especialmente aqueles relacionados à organização comunitária, à cooperação, à formação agroecológica, à conservação da biodiversidade, às sementes crioulas e às relações entre produção agrícola, território e Bem Viver.

3 Fundamentação teórica

3.1 A construção da Rede Semear: Agroecologia e organização coletiva

A constituição da Rede Semear resulta de um processo de organização social construído a partir das necessidades concretas vivenciadas por agricultoras e agricultores familiares do Sudeste de Rondônia. Diferentemente de iniciativas originadas por programas institucionais ou políticas públicas previamente estruturadas, sua formação decorreu da mobilização das próprias famílias rurais, que identificaram a necessidade de fortalecer mecanismos de cooperação capazes de sustentar a transição para sistemas de produção fundamentados nos princípios da Agroecologia.

A origem da Rede está diretamente relacionada às dificuldades enfrentadas por agricultores(as) que optaram por produzir alimentos sem o uso de agrotóxicos em uma região fortemente marcada pela predominância do modelo agrícola convencional, sobretudo do agronegócio. A ausência de assistência técnica especializada, a limitada oferta de espaços de formação e a necessidade de produzir alimentos livres de veneno, impulsionaram a construção de uma rede baseada na solidariedade, na troca de experiências e na aprendizagem coletiva.

Embora sua formalização tenha ocorrido por volta de 2020, suas raízes remontam à Feira de Troca de Mudas e Sementes Semear, iniciada em 2017, durante a Romaria da Bíblia, realizada na Linha 45, em São Felipe do Oeste (RO). Esse evento consolidou-se como espaço privilegiado para a circulação de sementes crioulas, mudas, conhecimentos e experiências entre agricultores(as) familiares, contribuindo para fortalecer a agricultura familiar, a cooperação, a troca de sementes e mudas e incentivar práticas agroecológicas.

Nesse processo, as sementes crioulas e as mudas, assumem papel que ultrapassa sua função produtiva. Elas representam patrimônio biológico, cultural e histórico das comunidades rurais, preservando variedades adaptadas às condições locais e fortalecendo a soberania alimentar das famílias agricultoras. O próprio nome “Semear” expressa esse compromisso com a multiplicação das sementes, dos conhecimentos e das relações de cooperação construídas entre os(as) integrantes da Rede e outros grupos sociais com quem também se articula.

Sob a perspectiva da Agroecologia, experiências como a Rede Semear demonstram que a sustentabilidade dos agroecossistemas depende não apenas da adoção de práticas ecológicas de manejo, mas também do fortalecimento das redes sociais que sustentam a circulação de conhecimentos e a cooperação entre agricultores(as). Conforme destacam Altieri (2012) e Gliessman (2015), a transição agroecológica exige a construção de sistemas produtivos resilientes fundamentados na valorização da biodiversidade, dos saberes locais e da participação comunitária.

Essa compreensão também dialoga com a perspectiva do Bem Viver, que propõe relações baseadas na reciprocidade, na solidariedade e na valorização da vida em todas as suas dimensões. Ao compartilhar sementes, mudas, saberes, organizar mutirões e construir espaços permanentes de formação, a Rede Semear fortalece não apenas a produção agroecológica, mas também formas de convivência que reconhecem a interdependência entre pessoas, comunidades e Natureza.

A partir dessa leitura, observa-se que a experiência da Rede Semear evidencia a Agroecologia como um processo social de construção coletiva, no qual a cooperação se torna elemento estruturante tanto da produção agrícola quanto da organização comunitária. Essa dinâmica amplia a compreensão da agricultura familiar, demonstrando que sua sustentabilidade depende da articulação entre práticas produtivas, relações sociais e valorização dos conhecimentos construídos nos territórios.

3.2 Agroecologia, Bem Viver e fortalecimento comunitário

A experiência da Rede Semear evidencia que a Agroecologia constitui muito mais do que um conjunto de técnicas destinadas à produção sustentável de alimentos. Os registros produzidos pelos(as) integrantes da Rede demonstram que ela representa uma forma de compreender a relação entre sociedade, Natureza e território, fundamentada na cooperação, na reciprocidade e no respeito aos ciclos naturais. Essa concepção aproxima-se da definição proposta por Caporal e Costabeber (2004), segundo a qual a Agroecologia deve ser compreendida como um enfoque científico, social, político e ético voltado à construção de sistemas agroalimentares sustentáveis.

Entre as práticas desenvolvidas pela Rede, os mutirões ocupam posição central. Realizados periodicamente nas propriedades das famílias participantes, esses encontros possibilitam o intercâmbio de conhecimentos, a realização de trabalhos coletivos e o fortalecimento dos vínculos comunitários. Durante essas atividades, os(as) agricultores(as) compartilham experiências relacionadas ao manejo agroecológico do solo, à produção de bioinsumos, ao cultivo de hortas diversificadas, à recuperação de nascentes e de áreas degradadas, construindo coletivamente soluções adaptadas às características do território.

Essa dinâmica aproxima-se da perspectiva pedagógica de Paulo Freire (1996), para quem o conhecimento é produzido por meio do diálogo, da experiência e da participação ativa dos sujeitos. Na Rede Semear, o(a) agricultor(a) deixa de ser mero(a) receptor(a) de tecnologias para assumir papel protagonista na construção e circulação dos saberes agroecológicos.

Outro aspecto relevante refere-se à valorização das sementes crioulas, consideradas patrimônio biológico, cultural e histórico das comunidades rurais. Sua conservação fortalece a autonomia das famílias agricultoras, reduz a dependência de sementes comerciais e contribui para a preservação da agrobiodiversidade. Conforme destaca Primavesi (2016), a sustentabilidade agrícola depende da manutenção da diversidade biológica e da compreensão dos processos ecológicos que sustentam a fertilidade do solo e a produção de alimentos.

A experiência analisada também evidencia significativa aproximação com os princípios do Bem Viver, perspectiva desenvolvida por autores como Acosta (2016) e Gudynas (2011). Nessa concepção, o desenvolvimento não pode ser reduzido ao crescimento econômico, devendo priorizar relações equilibradas entre seres humanos e Natureza. Assim, a produção agrícola passa a ser compreendida como atividade comprometida com a conservação ambiental, a justiça social e o fortalecimento das comunidades.

A atuação da Rede demonstra ainda que a construção da Agroecologia depende do fortalecimento das relações comunitárias. A solidariedade manifesta-se em diferentes momentos, como na realização de mutirões extraordinários para auxiliar famílias em situação de dificuldade, na organização coletiva das feiras, na troca de sementes e na partilha dos conhecimentos produzidos ao longo das experiências de cultivo. Essas ações reforçam a compreensão de que a sustentabilidade dos agroecossistemas está diretamente relacionada à capacidade de cooperação entre as pessoas envolvidas.

Além da dimensão produtiva, a Rede promove processos permanentes de formação por meio de cursos, oficinas, encontros técnicos e visitas às propriedades. Tais atividades fortalecem a autonomia das famílias agricultoras e favorecem a construção de sistemas produtivos menos dependentes de insumos externos, ampliando a capacidade de adaptação diante dos desafios econômicos e ambientais presentes na agricultura familiar amazônica.

Nesse contexto, observa-se que a Rede Semear constitui uma experiência de desenvolvimento territorial fundamentada na valorização dos conhecimentos locais, na conservação da biodiversidade e na construção coletiva de alternativas sustentáveis para o meio rural.

4 Resultados e discussão

A análise do Caderno Coletivo da Rede Semear (Rede Semear, 2022-2026) evidencia que a organização desempenha papel relevante no fortalecimento da agricultura familiar agroecológica no Sudeste de Rondônia. Sua principal contribuição está na constituição de um espaço permanente de cooperação entre agricultores(as), favorecendo a troca de conhecimentos, a experimentação de práticas sustentáveis e o fortalecimento das relações comunitárias. Essa experiência aproxima-se da compreensão de Altieri (2012) e Gliessman (2015), segundo os quais a Agroecologia envolve a construção de sistemas produtivos diversificados, sustentáveis e articulados aos saberes locais.

O caderno coletivo registra que os mutirões constituem uma das principais estratégias de construção compartilhada do conhecimento (Rede Semear, 2022-2026). Nesses encontros, os(as) integrantes compartilham experiências, adaptam técnicas agroecológicas às condições de cada propriedade e fortalecem vínculos de confiança, solidariedade e pertencimento. Essa forma de aprender pela experiência dialoga com Freire (1996), para quem o conhecimento se constrói no diálogo e na participação ativa dos sujeitos. Na Rede Semear, agricultores e agricultoras assumem papel ativo na produção e circulação de conhecimentos, tendo como referência suas próprias experiências e o contexto em que vivem.

Outro aspecto recorrente no caderno é a valorização das sementes crioulas e da agrobiodiversidade (Rede Semear, 2022-2026). As feiras de troca promovidas pela Rede contribuem para conservar variedades tradicionais, fortalecer a soberania alimentar e envolver diferentes gerações na preservação dos conhecimentos agrícolas. Essa prática relaciona-se com a compreensão de Primavesi (2016), segundo a qual a diversidade biológica, o cuidado com o solo e o respeito aos processos ecológicos constituem fundamentos de uma agricultura sustentável. Também se aproxima das contribuições de Altieri (2012), ao destacar a biodiversidade como base da sustentabilidade dos agroecossistemas.

Os relatos reunidos ao longo do período analisado indicam ainda que a atuação da Rede Semear ultrapassa a dimensão produtiva da agricultura (Rede Semear, 2022-2026). A organização participa de processos de formação, mobilização comunitária e defesa do território, além de manter articulações com instituições de ensino, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. Nesse sentido, sua experiência dialoga com Caporal e Costabeber (2004), que compreendem a Agroecologia como um campo constituído por dimensões técnicas, sociais, políticas e éticas.

As narrativas presentes no caderno também revelam aproximações com os princípios do Bem Viver, especialmente pela valorização da cooperação, da reciprocidade, do cuidado com a Natureza e da vida comunitária (Rede Semear, 2022-2026). Como apontam Acosta (2016) e Gudynas (2011), o Bem Viver propõe uma concepção de desenvolvimento que não se restringe ao crescimento econômico. Nessa perspectiva, produzir alimentos, cuidar da terra, trocar sementes e fortalecer vínculos comunitários integram um mesmo projeto de vida.

Essa relação entre produção, território e vida comunitária também pode ser compreendida a partir das contribuições de Leff (2015) e Porto-Gonçalves (2017). Esses autores demonstram que os conflitos ambientais e rurais não dizem respeito apenas ao uso dos recursos naturais, mas também aos modos de vida, aos saberes das comunidades e às formas de relação estabelecidas com a Natureza. Ao fortalecer práticas agroecológicas territorialmente situadas, a Rede Semear constrói uma alternativa concreta ao agronegócio e reafirma a importância dos conhecimentos produzidos pelas comunidades rurais.

A documentação também evidencia desafios enfrentados pela organização, entre os quais se destacam a ampliação da participação das juventudes, o fortalecimento dos processos de sucessão rural, a continuidade das ações autogestionárias e a expansão das práticas agroecológicas para outras comunidades (Rede Semear, 2022-2026). Tais desafios indicam que a consolidação da Agroecologia depende tanto de práticas produtivas sustentáveis quanto de organização social, formação permanente e participação comunitária, conforme argumentam Altieri (2012), Gliessman (2015) e Caporal e Costabeber (2004).

Esses desafios não diminuem a relevância da experiência analisada. Ao contrário, demonstram que a Rede Semear constitui um processo vivo de construção coletiva, continuamente reelaborado por seus integrantes ao longo do período documentado. O conjunto da documentação evidencia que a Agroecologia se fortalece quando parte das necessidades concretas das comunidades, valoriza os conhecimentos locais e produz relações de cooperação capazes de sustentar práticas solidárias, ecológicas e territorialmente enraizadas.

5 Aplicações práticas

A análise desenvolvida neste artigo pode orientar agricultores(as) familiares, extensionistas rurais, educadores(as), gestores(as) públicos(as) e organizações da sociedade civil interessados(as) na promoção da Agroecologia e do desenvolvimento rural sustentável. A experiência da Rede Semear mostra que políticas públicas voltadas à agricultura familiar podem alcançar melhores resultados quando valorizam processos participativos, fortalecem redes locais de cooperação e reconhecem os conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades rurais.

Da mesma forma, os registros analisados reforçam a importância de incentivar práticas como mutirões, feiras de sementes crioulas, formação continuada e construção coletiva do conhecimento. Essas ações favorecem a autonomia produtiva, a conservação da biodiversidade e o fortalecimento das organizações comunitárias.

Este trabalho também pode apoiar novas pesquisas sobre Agroecologia na Amazônia, especialmente aquelas voltadas às relações entre agricultura familiar, organização social, conservação ambiental e Bem Viver.

6 Considerações finais

Este artigo teve como objetivo analisar a experiência da Rede Semear como expressão da Agroecologia e do Bem Viver no contexto da agricultura familiar do Sudeste de Rondônia. A partir da análise dos registros produzidos pelos(as) integrantes da Rede e do diálogo com a literatura especializada, verificou-se que a Rede constitui uma experiência de organização coletiva capaz de integrar produção agroecológica, formação permanente, conservação da biodiversidade e fortalecimento comunitário.

Os resultados demonstram que práticas como mutirões, feiras de troca de sementes, produção de bioinsumos e processos participativos de aprendizagem fortalecem os sistemas produtivos e, ao mesmo tempo, as relações de solidariedade, reciprocidade e pertencimento entre agricultores(as) e famílias agricultoras.

Verificou-se, igualmente, que a Agroecologia vivenciada pela Rede Semear ultrapassa a dimensão técnica da produção agrícola, configurando-se como um modo de vida orientado pelo cuidado com a terra, pela valorização dos saberes tradicionais e pela defesa da biodiversidade. Essa compreensão aproxima a experiência dos princípios do Bem Viver, ao reconhecer que a sustentabilidade depende da construção de relações equilibradas entre pessoas, Natureza e comunidade.

Embora o estudo esteja limitado à análise de uma experiência específica, seus resultados oferecem contribuições importantes para compreender as potencialidades da Agroecologia como estratégia de desenvolvimento rural sustentável na Amazônia. Pesquisas futuras poderão aprofundar a análise dos impactos socioeconômicos, ambientais e culturais produzidos pela atuação da Rede Semear, ampliando o conhecimento sobre experiências semelhantes desenvolvidas em outros territórios brasileiros.

Referências

ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária, 2016.

ALTIERI, Miguel. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

CAPORAL, Francisco Roberto; COSTABEBER, José Antônio. Agroecologia e extensão rural: contribuições para a promoção do desenvolvimento rural sustentável. Brasília: MDA, 2004.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GLIESSMAN, Stephen R. Agroecology: the ecology of sustainable food systems. 3. ed. Boca Raton: CRC Press, 2015.

GUDYNAS, Eduardo. Buen Vivir: today's tomorrow. Development, v. 54, n. 4, p. 441-447, 2011.

LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade e poder. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

REDE SEMEAR. Caderno coletivo da Rede Semear. [Espigão d’Oeste], RO, 2022–2026. Documento institucional de circulação interna.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A globalização da natureza e a natureza da globalização. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

PRIMAVESI, Ana. Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais. São Paulo: Expressão Popular, 2016.

Figura

Símbolo da Rede Semear, com árvore estilizada, folhas verdes e o nome rede SEMEAR.
Figura 1: Símbolo da Rede Semear.

Sobre os(as) autores(as)

LEITE, C. S.: Especialista em Auditoria, Perícia e Projetos Ambientais pela Faculdade de Pimenta Bueno. Bacharel em Ciências Contábeis. Servidora pública. Agricultora familiar, membro fundadora e participante da Rede Semear. E-mail: cicera.sleite4560@gmail.com

POZZEBON, A.: Especialista em Direitos Humanos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e em Cooperativismo pela Universidade Vale dos Sinos. Filósofo, agricultor familiar, apicultor, membro fundador e participante da Rede Semear. E-mail: altairpozzebon@hotmail.com

ALVES, A. P.: Técnica em Agronegócio pelo SENAR. Agricultora familiar e membro participante da Rede Semear. E-mail: Paulaalvesa339@gmail.com

CHAVES, J. O.: Pedagogo pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Agricultor familiar, membro fundador e participante da Rede Semear e do MST. E-mail: Luzineibarreto@gmail.com

HENDGES, L. P. B.: Secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Espigão D’Oeste. Presidente da Associação de Mulheres Agricultoras da Zona da Mata (AMAZOMA). Educadora popular, terapeuta em Homeopatia, agricultora familiar e participante da Rede Semear e das Servas Luteranas. E-mail: leonicepereirabritohendges@gmail.com

COGO, M. A.: Especialista em Gestão Escolar pela Universidade Federal de Rondônia. Pedagoga, agricultora familiar e participante da Rede Semear. E-mail: gustacogo@hotmail.com

OLIVEIRA, P. A. A.: Estudante do Curso Técnico em Agroecologia integrado ao Ensino Médio pelo Instituto Técnico Federal de Rondônia. Agricultora familiar e participante da Rede Semear. E-mail: polianaandreine@gmail.com

Declarações

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