Textos literários
DOI: https://doi.org/10.62009/bemviver.2764.9679n1/2026/566/p59-62
Lasanha arranha aranha
Philiane Ferreira
Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO)
Resumo
O conto aqui apresentado constitui apenas a segunda publicação das poucas linhas que tracei até hoje. A primeira foi “Muro aberto”, conto publicado no livro Mulheres do Brasil – Rondônia, iniciativa da editora Arte da Palavra. Voltei à pulsão da escrita, castrada na primeira florada, cuja cena ainda permanece viva e um dia será contada, depois do laço formado com uma amiga que contraventou as expectativas genitoras ainda na idade da revolta, a adolescência. Já eu esperei os 40, idade em que se diz que a vida finalmente começa. O conto ora oferecido, inocente, mas recheado de intenções e vontades, contém a coragem duvidosa de quem se sabe atenta e firme, embora afetada pelas interpelações externas. As lembranças pessoais, as histórias alheias e os sentimentos gerados em meu ouvido treinado, ou no coração afetado pelo que é genuinamente humano, são os elementos que compõem as histórias que consigo escrever. Além das técnicas aprendidas em um curso on-line de escrita criativa, é claro!
Palavras-chave: menina; coragem; aprendizagem; autonomia.
Abstract
The short story presented here constitutes only the second publication of the few texts I have written to date. The first was Open Wall, a short story published in the book Women of Brazil – Rondônia, an initiative of Arte da Palavra Publishing. I returned to the impulse to write, which had been stifled in its first blossoming, a moment that remains vivid and will one day be told, after forming a bond with a friend who defied her parents' expectations during the rebellious years of adolescence. As for me, I waited until the age of forty, an age often said to mark the true beginning of life. The short story presented here, seemingly innocent yet filled with intentions and aspirations, reflects the uncertain courage of someone who knows herself to be attentive and steadfast, although affected by external judgments. Personal memories, the stories of others, and the feelings awakened through my attentive listening, or through a heart moved by what is genuinely human, are the elements that shape the stories I am able to write. Alongside them, of course, are the techniques I learned in an online creative writing course.
Keywords: girl; courage; learning; autonomy.
Resumen
El cuento aquí presentado constituye apenas la segunda publicación de los pocos textos que he escrito hasta hoy. La primera fue Muro abierto, un cuento publicado en el libro Mujeres de Brasil – Rondônia, iniciativa de la editorial Arte da Palavra. Regresé al impulso de escribir, reprimido en su primera floración, cuya escena permanece viva y algún día será contada, después del vínculo formado con una amiga que desafió las expectativas de sus progenitores durante la edad de la rebeldía: la adolescencia. Yo, en cambio, esperé hasta los cuarenta años, una edad en la que suele decirse que la vida finalmente comienza. El cuento que aquí se ofrece, aparentemente inocente, pero lleno de intenciones y deseos, contiene el valor incierto de quien sabe que es atenta y firme, aunque se deja afectar por las interpelaciones externas. Los recuerdos personales, las historias ajenas y los sentimientos despertados por mi oído atento, o por un corazón conmovido por aquello que es genuinamente humano, son los elementos que componen las historias que logro escribir. Además, por supuesto, de las técnicas aprendidas en un curso en línea de escritura creativa.
Palabras clave: niña; valentía; aprendizaje; autonomía.
Lasanha arranha aranha
Atrás da porta descansava a “jardineira-saia” que me fazia muito feliz. Após algumas horas, que naquele tempo e espaço eram incontáveis e não delineáveis, permeadas por brincadeiras, risos, suor, força e muita imaginação, tomei um banho demorado e animado pela notícia de mais diversão. Saí me imaginando chegando na sorveteria com minha “jardineira-saia” jeans, me sentindo esperta e capaz naquela roupa que ninguém tinha igual ou parecida, e escolhendo o sabor de sorvete mais estranho e diferente que pudesse ter no dia.
Nossa casa de madeira em “mata junta”, com assoalho alto e apenas um banheiro - inaugurado pela dona da casa com um churrasco, por ser de azulejos floridos - tinha o piso de madeira cor de vinho e as portas brancas, marcadas de mãos e pés de poeira. Atrás de uma delas, pendurada em um cabide no meu quarto, estava minha “jardineira-saia”. Já usada mas ainda limpa, afinal era uma “roupa de sair”. Coloquei uma camiseta branca que se colava ao meu corpo quase cilíndrico pela ausência das esperadas curvas femininas, vesti a maior calcinha que tinha e joguei a jardineira por cima, que entrou fácil e rápida.
Antes do instante em que iria me sentir incrível, antes de me olhar de cima a baixo, senti algo estranho e incômodo, e do grande bolso da jardineira que ocupava todo o meio do peito, um bolso que parecia ter sido feito para guardar coisas do coração, saiu dali uma enorme aranha caranguejeira. Oito patas peludas e uma bolota de corpo carnuda surgindo apavorada e ágil abaixo do meu queixo, e subindo em direção ao meu pescoço. Acho que deu tempo de achá-la bonita, ou o tempo que se deu entre a vida e a escrita me fizeram achá-la bonita.
Me sacudi, dei-lhe um peteleco com as mãos, gritei e veio meu irmão. Quem não me acreditou no que contei, riu, mas se preocupou quando encontrou a gigantesca aranha no canto da cômoda. A mãe veio com uma vassoura e se livrou dela, recomendando a todos em casa que cuidassem: “Bate o sapato, sacode a roupa antes de vestir. É tempo de chuva e elas procuram lugar escuro e seco para se esconderem”.
Eu já tinha encontrado algumas delas, no sítio, na casa da avó, lá estavam elas, vindas das frestas do assoalho, se escondendo debaixo das panelas guardadas na prateleira sem portas, embaixo dos tapetes ou nos cantos das paredes. Correndo, se escondendo, avançando em quem as encontrava, e as crianças sempre imaginando que elas jogariam em nós os pelinhos “venenosos” que nos levariam para o hospital, se não nos deixassem cegos.
Mas naquele dia, quando aquela aranha saiu de dentro do bolso posicionado no meio do meu peito, ela não avançou, não atacou ou me jogou seu veneno. Parecia muito mais amiga, e assustada.
Saiu daquele bolso sobre o coração algo temido, mal visto, assombroso e indefeso. Preta, peluda, rápida e de cara feia, parecia só assustada por ter que sair do cantinho escuro e apertado que havia encontrado para se proteger.
Apesar do conforto em que estava, ela sabia que não era ali o seu lugar, que hora ou outra um balanço incômodo a faria avançar. E mesmo com medo e raiva de mim, quem lhe causou o incômodo, ela também me viu, me olhou com certa gratidão e aceitação. Mas não paralisou, e não se deixou tomar outro peteleco ou bofetão. Saltou e se escondeu.
Horas depois, sentada na varanda aos fundos de casa, olhando o quintal, comendo um biscoito de polvilho, distraída, descobri que a vassourada de minha mãe não foi fatal. A aranha é maleável, a pancada veio de cima e as pernas logo se encolheram protegendo o corpo. Ela foi jogada para fora toda encolhida, como morta, mas depois, já em local seguro, como uma mola, desencolheu, voltando à sua forma.
Ademais, duvido que a vassourada materna tenha sido assim tão forte. A avó dizia: “Pé de galinha não mata pinto!”. E a recomendação quanto aos peçonhentos, é de que não se deve matar, as cobras e aranhas que entram em casa devemos apenas espantá-las, senão elas voltam. Outras delas voltam.
Sobre a autora
Philiane Ferreira Paulino da Silva, nome artístico Philiane Ferreira, é mestre em Ciências Sociais pela Universidad Nacional de La Matanza, Argentina (2017). Especialista em Terapia Familiar Sistêmica pelo CEFATEF/SP (2019) e em Gestão Municipal de Políticas Públicas pela Faculdade de Direito de Vitória - FDV (2004). Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (2002). Analista judiciária - assistente social - no Tribunal de Justiça de Rondônia. Exerceu atividade docente de 2008 a 2020. Suas atividades profissionais relacionam-se aos seguintes temas: perícias, relatórios e pareceres técnicos no campo sociojurídico, conflitos familiares, medidas protetivas de violências, redes de atendimento do serviço público, política de assistência social, formação profissional e planejamento. E-mails: philiferreira11@gmail.com; philiane@tjro.jus.br