Textos Literários | Categoria: Conto
DOI: https://doi.org/10.62009/bemviver.2764.9679n2/2025/504/p58-61
Nesta obra, a memória familiar aparece como coisa viva: meio lembrança, meio invenção, meio ferida antiga. O conto acompanha uma casa povoada por figuras fortes, o pai descrente e contador de causos, a avó benzedeira e cheia de ditos, a mãe chamada por um nome que não era bem seu, os galos, os boatos, a vila, o medo e a fuga.
A narrativa se move entre humor, espanto e ternura. Um mal-entendido sobre comunismo vira acontecimento de família; um eclipse atravessa o céu como sinal; um nome descoberto tarde demais muda a forma de olhar para uma vida inteira.
Não sei bem qual a origem do meu pai, mas devia ser filho de imigrantes: italianos, alemães, ou os dois. Mas sei que nasceu no Sul, sob o signo de Capricórnio. Minha avó materna, Vó Benedita — a Vó Dita —, tinha certos ditados; dizia que esse signo é o signo do bode, e com bodes não se brinca. Dizia que pior que esse é o Escorpião. Vó Dita tinha essas coisas, tinha esses cismas. Mas acredito que, na verdade, ela não fez muito gosto no casório de minha mãe com meu pai.
Meu pai, incrédulo de pai e mãe, mesmo nascido no berço da fé cristã, com nome de santo — e santo dos grandes, Antônio —, com pai e mãe beatos de sacristia, dizia que o homem basta ao homem; o resto é conversa para entreter as mulheres além dos afazeres do dia. Bradava com toda força dos pulmões: “Religião é enganação!”. Apesar disso, meu pai não tinha nenhum partido político, não opinava sobre política, sobre nada; apenas não era crédulo e com isso mantinha o confronto com Vó Dita, que era parteira, benzedeira e dada às coisas dos signos, leitura das mãos e jogo de cartas.
Lembro-me, certa vez, que minha mãe falou da preocupação com essa falta de crença de meu pai. Havia desconfiança, por parte da vizinhança, de que ele era comunista — embora ninguém soubesse o que era isso. Dona Carola, esposa do dono do armazém, dizia que quem não acreditava em Deus era comunista. Minha mãe ficou muito preocupada; passou dias a fio matutando, juntando uma coisa aqui, outra ali, pensando o que seria comunista. Observou atentamente o meu pai: além da descrença dele, era falante, bom contador de anedotas e de causos sérios. Quando começava a contar uma história, tinha sempre uma plateia atenta e absorvida pela sua prosa; falava com as mãos, dava pulos e cambalhotas, imitava pessoas e animais.
Então, minha mãe presumiu: é comunista. Meu Antônio, que não é santo, o Tonho dos Galos, é comunista. Correu e logo contou para dona Carola, que contou para dona Zefinha, que contou para o marido, seu Biapino, que contou para o delegado. A vila inteira sabia da notícia.
O delegado chamou o padre Cecílio e fez toda a narrativa: foi a mulher dele que confessou, o homem é comuna, não acredita em Deus. Enquanto o padre e o delegado ponderavam o assunto lá dentro, o povo, a vila inteira, fazia romaria em frente à delegacia. No meio da multidão, minha mãe já estava preocupada. Pode ser que comunista não fosse o que ela imaginou; talvez fosse uma doença, um mal, uma coisa ruim, pois o caso terminou nas mãos das autoridades eclesial e a policial — então, boa coisa não era.
Saiu de mansinho, discretamente, e enquanto todos esperavam pelo veredicto das autoridades, ela correu para o galinheiro, onde meu pai, tranquilo da vida, cuidava dos galos. Minha mãe contou-lhe a história. Enquanto contava, aconteceu um fenômeno no céu: era dia, mas o dia virou noite. Mau sinal. Meu pai, incrédulo até aquele momento, passou a crer.
Não sei qual o nome da minha mãe. Ninguém em casa sabia. Desde a primeira semana de casamento, meu pai a nomeou: Preta, minha Preta. Talvez um apelido carinhoso, mas só sei que, a partir daí, minha mãe passou a ser a Dona Preta.
A comunidade era pequena, todos conheciam a todos, e todos sabiam da Dona Preta do seu Antônio, ou Tonho Pedreiro, ou Tonho dos Galos. Meu pai construía e gostava da rinha de galos.
E assim foi, até o dia em que ela morreu… Neste dia, olhei o documento de morte e descobri o nome da minha mãe: era Efigênia. Efigênia! Fiquei repetindo: Efigênia! Efigênia! Que nome bonito, termina com “gênia”. Pensei: é isso! Que coisa esplêndida, sinônimo de gênio! E minha mãe tinha mesmo uma genialidade; como minha avó, era benzedeira, parteira, costureira, cozinheira, conselheira... sabia das coisas da terra e do céu, como a Vó Dita.
...também perdi meu nome.
BASSO, E.: Assistente Social do Tribunal de Justiça de Rondônia; bacharela em Serviço Social pela Universidade Estadual do Tocantins (Unitins); licenciada em Letras (Língua Portuguesa/Literaturas) pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR); Especialista em Terapia Familiar Sistêmica pelo Centro de Formação e Estudos Terapêuticos da Família (CEFATF); Especialista em Língua Portuguesa pela UNIR; Especialista em Política de Assistência Social, Gestão e Projetos Sociais pela Faculdade de Pimenta Bueno/RO (FAP); Formação em Constelação Familiar Sistêmica pelo Instituto Terra Movimento de Luz; facilitadora em Justiça Restaurativa/EMERON/TJRO. E-mail: eliane.basso@tjro.jus.br