Revista Bem Viver Compartilhando Saberes,
V. 2 , 1 - Janeiro a Junho/ 2025 07
Caras leitoras e caros leitores,
edições de uma revista que são como um
espelho d’água: devolvem a quem o rosto
de um tempo, as margens de uma história
coletiva. Este é o caso do presente número da
Revista do Bem Viver Compartilhando
Saberes. Fazemos aqui um convite para
atravessar, com olhos abertos e coração
atento, as memórias de Rondônia e da
Amania.
Cada texto é uma travessia neste chão
milenar e, de algum modo, conecta vidas que
se inscrevem nos rios, nos nomes das
árvores, nos gestos teimosos de quem
construiu este estado. Histórias de pessoas
que, muitas vezes, permaneceram silenciadas
ou esquecidas, mas que agora reaparecem
como sementes lançadas sobre a terra fértil da
memória. As narrativas reunidas neste número
não apenas recordam: elas convocam.
Convocam a pensar nas marcas profundas da
colonialidade do poder, que ainda atravessa
corpos e territórios, insistindo em determinar
quem pode sonhar, quem pode contar sua
história.
A sociedade de risco, com seu horizonte de
incertezas e ameaças, se insinua nos detalhes
do cotidiano, mostrando que a vida na
Amazônia é feita de desafios, mas também de
uma resistência que se reinventa a cada dia. A
desigualdade racial, mais do que estatística,
emerge aqui como experiência vivida, dor e
esperança entrelaçadas na aprendizagem de
crianças negras, exigindo do(a) leitor(a) um
olhar que não se contente com a superfície.
Na seção de Literatura, a palavra ganha outra
textura. O conto escrito por uma mulher
indígena do povo Sakurabiat não é apenas
literatura: é gesto de existência, afirmação de
um mundo que resiste ao apagamento. Suas
palavras nos fazem lembrar que a Amazônia
pulsa em inúmeras línguas, que a
ancestralidade é uma presença viva, e que
contar é também um modo de manter-se de
pé diante das tempestades do tempo.
Esta edição, como sempre, não oferece
respostas prontas para os grandes desafios de
nosso tempo. Mas inscreve no coração e
mente o risco do incômodo, a dúvida fértil, a
pergunta aberta para possíveis caminhos.
Ao compartilhar saberes, nos propomos a
escutar o que ainda não foi dito, a enxergar o
que costuma ficar à margem. Porque viver
bem, talvez, seja justamente isso: reconhecer
que o outro nos atravessa, que a memória nos
molda, que a transformação é sempre possível
e necessária.
Que este número seja, então, mais do que
leitura: seja encontro, semente e reinvenção.
Leandro Aparecido Fonseca Missiatto
Editor-chefe
Revista Bem Viver Compartilhando Saberes,
V. 2 , 1 - Janeiro a Junho/ 2025 07
EDITORIAL