ARTIGOS
UMA HISTÓRIA DE PIONEIRISMO E LUTA PELA TERRA
EM JI-PARANÁ/RO: ENTREVISTA COM A SENHORA
CÉLIA REGINA
A STORY OF PIONEERING AND STRUGGLE FOR LAND IN
JI-PARANÁ/RO: INTERVIEW WITH MRS. CÉLIA REGINA
UNA HISTORIA DE PIONERISMO Y LUCHA POR LA
TIERRA EN JI-PARANÁ/RO: ENTREVISTA CON LA
SEÑORA CÉLIA REGINA
Poliana Pereira Reinoso1
RESUMO
O presente artigo é fruto de uma entrevista realizada em abril de 2025
como requisito da disciplina interseccionalidade na Amazônia: teoria e
pesquisa em psicologia sob a orientação do professor Dr. Leandro
Aparecido Fonseca Missiatto, realizada no Mestrado em Psicologia da
Universidade Federal de Rondônia. A metodologia usada neste trabalho
foi a entrevista, uma vez que sua aplicabilidade é essencial em contextos
sociais e históricos. No caso da entrevista aqui apresentada, optamos por
ouvir a história de uma mulher pioneira na luta pela terra no município de
Ji-Paraná. Enquanto recurso, realizou-se uma gravação pelo celular e
posteriormente, transferido para texto por meio do aplicativo transcribeMe.
A relevância dessa entrevista se deu na percepção do reconhecimento e
valorização da luta pela terra. A permanência e persistência da família da
senhora Célia Regina foram marcadas pela coragem e enfrentamento dos
desafios da região Amazônica e das dificuldades estruturais na época da
colonização.
pioneirismo; luta pela terra; permanência no campo.Palavras-chave:
Maria do Socorro Eliza Monteiro da Silva2
1 Universidade Federal de Rondônia (UNIR). E-mail: polianapereirareinoso@gmail.com
Governo de Rondônia. E-mail: rosamarciaramos@hotmail.com
3
Rosa Marcia Firmino Ramos3
E-mail: maria.silva.unir.t5@gmail.com
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Revista Bem Viver Co mparti lhando Saber es, V. 2, Nº 1 - J aneiro a Junho/2025
ABSTRACT
The present article is the result of an interview conducted in April 2025 as a requirement for
the course "Intersectionality in the Amazon: Theory and Research in Psychology," under the
supervision of Professor Dr. Leandro Aparecido Fonseca Missiatto, as part of the Master's
Program in Psychology at the Federal University of Rondônia. The methodology used in this
work was the interview, since its applicability is essential in social and historical contexts. In
the case of the interview presented here, we chose to listen to the story of a pioneering
woman in the struggle for land in the municipality of Ji-Paraná. As a resource, the interview
was recorded on a cell phone and later transcribed into text using the TranscribeMe app.
The relevance of this interview was perceived in the recognition and appreciation of the
struggle for land. The permanence and persistence of Mrs. Célia Reginas family were
marked by courage and the confrontation of the challenges of the Amazon region and the
structural difficulties during the colonization period.
pioneering; land struggle; permanence in the countrysideKeywords:
RESUMEN
El presente artículo es fruto de una entrevista realizada en abril de 2025 como requisito de
la asignatura Interseccionalidad en la Amazonía: teoría e investigación en psicología, bajo
la orientación del profesor Dr. Leandro Aparecido Fonseca Missiatto, llevada a cabo en el
Máster en Psicología de la Universidad Federal de Rondônia. La metodología utilizada en
este trabajo fue la entrevista, ya que su aplicabilidad es esencial en contextos sociales e
históricos. En el caso de la entrevista aquí presentada, optamos por escuchar la historia de
una mujer pionera en la lucha por la tierra en el municipio de Ji-Paraná. Como recurso, se
realizó una grabación con teléfono celular y, posteriormente, se transfirió a texto mediante la
aplicación TranscribeMe. La relevancia de esta entrevista se evidenció en la percepción del
reconocimiento y valorización de la lucha por la tierra. La permanencia y persistencia de la
familia de la señora Célia Regina estuvieron marcadas por el coraje y el enfrentamiento de
los desafíos de la región amazónica y de las dificultades estructurales en la época de la
colonización.
pionerismo; lucha por la tierra; permanencia en el campo.Palabras clave:
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A entrevista é uma importante ferramenta para a construção
de dados na pesquisa porque ela facilita a comunicação
entre as partes envolvidas no processo investigativo. Com o
diálogo, o/a pesquisador/a pode obter informações que não
são encontradas em documentos com riqueza de detalhes
porque são informações oriundas da experiência e da
vivência do/a participante no fenômeno educativo
investigado. O tipo de entrevista feita com a senhora Célia
Regina foi semiestruturada, que permite uma maior
flexibilidade nas respostas e nos diálogos, onde:
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As questões, nesse caso, deverão ser
formuladas de forma a permitir que o sujeito
discorra e verbalize seus pensamentos,
tendências e reflexões sobre os temas
apresentados. O questionamento é mais
profundo e, também, mais subjetivo, levando
ambos a um relacionamento recíproco, muitas
vezes, de confiabilidade. Frequentemente, elas
dizem respeito a uma avaliação de crenças,
sentimentos, valores, atitudes, razões e
motivos acompanhados de fatos e
comportamentos. Exigem que se componha um
roteiro de tópicos selecionados. As questões
seguem uma formulação flexível, e a sequência
e as minúcias ficam por conta do discurso dos
sujeitos e da dinâmica que acontece
naturalmente (Rosa; Arnoldi, 2008, p. 30-31).
INTRODUÇÃO
Diante do contexto, foi escolhida a entrevista
semiestruturada, considerada importante instrumento de
coleta de dados para a pesquisa qualitativa, uma vez que
seu caráter mais flexível e passível de trocas permite ao/a
investigador/a interpretar a realidade com base nos
depoimentos dados pelos/as participantes, conforme observa
Bastos e Santos (2013, p. 71) ao apontar que entrevista
semiestruturada é [...] uma oportunidade em que os
participantes constroem versões e significados para o mundo
em que estão inseridos e do qual fazem parte.
O roteiro desta entrevista foi com a senhora Célia Regina
Gomes Ângelo, residente da zona rural do município de Ji-
Paraná. Nascida em 1954 no estado de São Paulo ela
chegou em Rondônia no final da década de 1970 juntamente
com seu esposo, o senhor Nourival Ângelo. Movidos pelo
ímpeto de conseguirem um pedaço de terra onde pudessem
viver, esse casal foi um dos pioneiros da linha 98.
A colonização agrícola em Rondônia ocorreu de forma efetiva após o INCRA (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária) disponibilizar terras para que as regiões Norte
e Centro-oeste pudessem ser ocupadas. Com o lema integrar para não entregar começou a
ocupação de Rondônia com incentivo do governo federal. Rondônia tornou-se assim,
destino de muitas pessoas que estavam em busca de terras. A Figura 1 apresenta uma
reportagem da revista Veja sobre o sonho dos migrantes em conseguir terras em Rondônia.
A ocupação do estado de Rondônia se deu de forma ordenada e por meio de estratégias, onde
segundo Amaral (2004) tal ocupação, que teve início na década de 70 se caracterizou por
impedir que um número considerável de indivíduo pudesse ter acesso à terra. Utilizando-se de
uma estratégia geopolítica, o Estado brasileiro procurou assegurar e controlar o domínio do
espaço através das políticas de ocupação do território, por meio de órgãos federais, como a
exemplo do INCRA criado em 1970.
Ao tratar da colonização em Rondônia Cunha (2015, p.12) nos diz que: O choque cultural foi
inevitável neste processo, que colocou pessoas de distintas regiões em um mesmo local.
Sotaques e formas diferentes de lidar com a terra e com o rebanho começaram aos poucos a se
misturar em novas configurações, não apenas sociais, mas também de produção laboral.
A Figura 2 mostra uma foto de Ji-Paraná em 1974, na proximidade do rio Machado. Ji-Paraná,
assim como outros municípios de Rondônia recebeu grande número de migrantes na década de
1970 movidos pelo sonho de conseguirem terras. Aos poucos, a vila de Rondônia foi se
transformando numa área urbana e na atualidade é a 2ª maior cidade de Rondônia.
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Figura 1: Reportagem na revista Veja mostra sonho e cotidiano de migrantes e de indígenas no interior de
Rondônia.
Foto: Reprodução/Governo de Rondônia, 2021.
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Figura 1: Reportagem na revista Veja mostra sonho e cotidiano de migrantes e de indígenas no interior de
Rondônia.
Fonte:Hervé Thery (1974)
METODOLOGIA
O presente trabalho foi realizado por meio de uma entrevista, tendo como recurso um
aparelho de celular para gravar as falas que foram direcionadas ao entendimento e reflexão
do contexto social em que a entrevistada vivencia. Este artigo foi produzido especialmente
para a Revista Bem Viver Compartilhando Saberes e adotou como metodologia a técnica de
entrevista. Segundo Fraser e Gomdim (2004), essa técnica consiste em fornecer dados
básicos para uma compreensão detalhada das crenças, atitudes, valores e motivações, em
relação aos comportamentos das pessoas em contextos específicos.
A entrevista é considerada uma modalidade de interação entre duas ou mais pessoas.
Trata-se de uma conversação dirigida a um propósito definido, ou seja, é uma forma de
interação social que valoriza o uso da palavra, símbolo e signo privilegiados das relações
humanas.
Acredita-se que a entrevista como técnica de pesquisa social associada às observações
etnográficas tenha sido usada inicialmente por Booth, em 1886, em estudo sobre as
condições sociais e econômicas dos habitantes de Londres. Como técnica de investigação
Nossa entrevistada, a srª Célia Regina nos conta em seus relatos das dificuldades
enfrentadas quando chegou aqui com as filhas ainda pequenas. Uma história de
pioneirismo, que mostra a força da mulher, da mãe, da esposa e que merece ser contada e
validada.
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foi gradativamente difundida nas pesquisas qualitativas e nas pesquisas quantitativas
(Fontana & Frey, 1994).
Entrevista cedida em 04 de abril de 2025 com autorização da entrevistada para divulgação
de dados, relatos e informações pessoais. Entrevista realizada em Ji-Paraná, Rondônia e
gravada com o aparelho de telefone celular e posteriormente transcrita com um aplicativo
que transforma áudio em texto (transcribeMe).
Para a realização da entrevista buscamos alguém com pertencimento e historicidade no
lugar, alguém que pudesse explanar suas experiências e vivências de forma detalhada.
Para tanto, recorremos a senhora Célia Regina, em razão de ter sido uma figura importante
no pioneirismo da linha 98, acompanhada de sua família (esposo e quatro filhos) lutou pela
posse da terra e se destaca por residir há muito tempo neste lugar, sendo testemunha das
transformações ocorridas no espaço, das pessoas que foram chegando e até hoje participa
efetivamente da comunidade. Em 2010 ela ficou viúva, porém, permaneceu na terra e
atualmente sua principal renda é a pecuária.
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RESULTADOS
Os resultados obtidos a partir da entrevista foi de suma importância para refletir sobre as
vivências e o pioneirismo da entrevistada. Um convite para conhecer melhor a realidade de
uma mulher que chegou em Rondônia logo no início da colonização. Suas falas e relatos
fazem parte da historicidade do lugar e sem dúvida foram de grande relevância para
construção social desta pesquisa.
Em que ano a senhora chegou em Rondônia e quais os motivos a trouxeram para cá?
Célia: Cheguei aqui dia 25 de novembro de 78. A razão de ter vindo pra cá foi desbravar a
terra, virar sitiante e agricultora.
Quais foram as dificuldades que a senhora enfrentou quando chegou aqui?
Célia: Foram muitas. Logo que eu cheguei, nós ficamos ainda um ano morando em Ji-
Paraná porque eu tinha duas crianças pequenas e aí não tinha estrada para a gente vir para
morar na Terra. Então o Nourival vinha sozinho para cá para a terra, passava a semana e
eu ficava na cidade com as crianças. Após um ano, aí eles fizeram uma estrada, assim de
picadão, de enxadão, de picareta, arrancando pedra... aquela coisa toda, aí conseguiu
melhorar a estrada, um pedaço para a gente conseguir chegar aqui no lombo de cavalo.
E na cidade não tinha energia, não tinha acesso a tudo que eu tinha lá em São Paulo
quando eu vim para cá. As meninas eram pequenas tinham o costume de comer fruta, essas
coisas e chegou aqui sofri muito porque não achava, mesmo que tivesse dinheiro para
comprar não achava e elas sofreram bastante e eu também e se for falar as dificuldades
tem muito mais, mas essas são as mais que mais atacou foi essa.
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A senhora conseguiu essa terra por meio do projeto de colonização do INCRA?
Célia: Sim, conseguimos. Assim, com muita dificuldade porque mesmo sem ter estrada,
mesmo sem ter condições de a gente viver na terra nós fomos obrigados a vir para cá para
estar aqui para que não fosse invadida a terra. Conseguimos sim,
mas com muita dificuldade. Com muito sofrimento naquela época
nós pegamos lote de 42 alqueires.
Quais foram os hábitos da sua cultura de origem que
permaneceram?
Célia: Não teve como a gente manter os
hábitos que a gente tinha lá.
Muitos deles a gente teve que esquecer e se adaptar
a um novo costume, uma nova forma de sobreviver.
Não teve como a gente manter os hábitos que a gente
tinha lá porque aqui era complicado, não tinha acesso
a coisas boas e era só dificuldade mesmo.
A senhora tem vontade de retornar a sua terra Natal?
Célia: Hoje, não. Já me adaptei aqui, já virei rondoniense e
agora eu não tenho vontade de voltar mais. Estou bem aqui,
graças a Deus.
Qual seu grau de escolaridade? Foi difícil chegar até essa escolaridade?
Célia: Eu tenho a oitava série concluída, mas foi difícil porque eu quando eu fiz o primário
eu tinha 15 anos. Depois parei e aí vim concluir a oitava série com 39 anos. E não consegui
ter como prosseguir para frente. Mas estou feliz. Foi difícil, muito difícil, mas consegui para
chegar à oitava série.
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Quais memórias afetivas de quando a senhora chegou aqui em Rondônia?
Célia: Bem... essa parte aí nós não tivemos não, porque aqui era muito complicado, aqui
era todo mundo muito carente, acolhia sim, da forma que estava no alcance, mas era
sofrimento para todo mundo. E isso marcou porque as pessoas mesmo com dificuldade,
eles ainda procuravam ajudar. O Nourival mesmo foi um dos que acolheu muitas pessoas
aqui e ajudou muita gente.
A Figura 3 é uma foto antiga do arquivo pessoal da srª Célia, onde é possível perceber a
primeira casa construída no sítio da família. Nos detalhes podemos perceber a mata ao
fundo e a casa feita de madeira, naquela época uma das principais condições para
Figura 3: Primeira casa construída pelo esposo da senhora Célia.
Foto: Arquivo pessoal da entrevistada.
conseguir
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Podemos considerar por meio da entrevista cedida pela senhora Célia, que a narrativa da
mesma se mescla aos processos de ocupação do estado de Rondônia. Ao migrar de São
Paulo para Rondônia na década de 1970 a senhora Célia Regina se deparou com muitos
desafios no que tange a região Amazônica, como doenças, falta de infraestrutura, saudade
da família e do seu local de origem. No contexto da colonização rondoniense, muitos
migrantes decidiram fazer de Rondônia o seu lugar de pertencimento, não foi diferente da
história da nossa entrevistada, que reside até hoje no mesmo lote que conseguiu na época
em que aqui chegou.
Desse modo podemos concluir que a vida das pessoas que lutam pela terra e que vivem no
campo é repleta de desafios. A memória é o alicerce que sustenta a identidade individual e
coletiva. Resguardar essa memória, especialmente por meio do registro de pessoas, é uma
tarefa fundamental para preservar a história, cultura e experiências que definem quem
somos. Cada pessoa carrega consigo uma narrativa única, que, quando registrada, torna-se
um patrimônio valioso para as gerações presentes e futuras
Esse relato representa a satisfação em está na terra. Registrar essas vivências é uma
forma de valorizar essas pessoas, garantir que suas contribuições não sejam apagadas
pelo tempo e fortalecer o reconhecimento da diversidade cultural e social do país.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
AMARAL, J. Mata virgem: Terra prostituta. São Paulo: Terceira Margem, 2004.
BASTOS, L. C.; SANTOS, W. S. A entrevista na pesquisa qualitativa: perspectivas em
análise da narrativa e da interação. Rio de Janeiro, RJ: Quartet Faperj, 2013.
CUNHA, E. A. da. A recente ocupação: migração e territorialização em Rondônia. XXVIII
Simpósio Nacional de História. Florianópolis, 2015. Disponível em:
https://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1434397453_ARQUIVO_ARECENTEO
CUPACAO-editado.pdf
FONTANA, A.; FREY, J. H. (1994). Interviewing the art of Science. Em N. Denzin & Y.S.
Lincoln (orgs.), Handbook of qualitative research (pp.361-376). London: Sage
Publications Inc.
FRASER, M.T.D; GONDIM, S.M.G. A fala do outro ao texto negociado: discussões sobre a
entrevista na pesquisa qualitativa. Paidéia, 2004, 14 (28), 139 -152.
ROSA, M. V. F. P. C.; ARNOLDI, M. A. G. C.. A entrevista na pesquisa qualitativa:
Mecanismos para a validação dos resultados. Belo Horizonte, MG: Autêntica, 2008.
THÉRY, H. Rondônia mutações de um território federal na Amazônia. SK Editora,
Curitiba, 2012.
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