A JR é um conceito que vai além da punição ou compensação financeira, trata-se de uma
concepção diferente de justiça que busca restaurar vínculos e reparar os danos causados,
priorizando a reconstrução de relações e a cura de feridas (Zehr, 2012). Hoje, se há algo
que precisa ser urgentemente restaurado é a nossa relação com a terra, rios, florestas e
com os demais seres com quem dividimos a casa-Terra. Por séculos, exploramos a
Natureza de forma predatória, rompendo os laços de equilíbrio e respeito que deveriam nos
unir ao meio ambiente (Acosta, 2016). A Justiça Restaurativa, nesse sentido, convida-nos a
reconhecer os danos causados, assumir responsabilidade e buscar ativamente a reparação.
Isso significa restabelecer a conexão com a Natureza, não apenas através de ações
práticas como reflorestamento e recuperação de ecossistemas, mas também por meio de
uma mudança cultural e espiritual. Devemos aprender a ouvir a voz da terra, honrar seus
ciclos e reconhecer que somos parte integrante dela, não seus donos (Krenak, 2020). A
restauração desses vínculos é fundamental para construir um futuro em que a humanidade e
a Natureza coexistam em harmonia, respeitando os direitos de todos os seres vivos.
A JR, assim como os saberes ancestrais de povos e comunidades tradicionais, nos ensina
que a verdadeira reconciliação começa com o reconhecimento do erro e a restauração do
que foi perdido. Ferimos a terra, poluímos os rios, devastamos as florestas e, com isso,
machucamos seus filhos e filhas. Milhões de espécies foram atingidas, e ecossistemas
inteiros foram desequilibrados. Reparar é um ato de responsabilidade e respeito. Isso pode
ser feito por meio da restauração florestal, como o reflorestamento de áreas degradadas
com espécies nativas, a revitalização de bacias hidrográficas contaminadas, e a criação de
corredores ecológicos que reconectem habitats fragmentados. Mas é preciso para além
disso, é essencial indenizar e apoiar as comunidades afetadas, garantindo que tenham
acesso a recursos, terras e meios de subsistência sustentáveis; descolonizar nossa matriz
de aprendizagens e saberes, dando evidência aos saberes de povos indígenas, quilombolas
e outras comunidades que historicamente vivem em respeito com a Natureza; e, sobretudo,
reconstruir nosso sistema de justiça para que ele atue em perspectiva da Natureza como
sujeito de direitos. Reparar é mais que um dever, é um compromisso ético com a vida e com
as gerações futuras.
A segunda frente de ação para superação da crise ecológica imposta pela sociedade de
risco, é avançarmos relação de ação co-criadora com a Natureza. Entendemos como ação
co-criadora, uma mudança radical na forma como nos relacionamos com a Natureza, saindo
de uma lógica de dominação e exploração para uma de parceria, harmonia e promoção da
vida. Não se trata mais de enxergar a terra, a água e as florestas como recursos a serem
extraídos e consumidos, mas de assumir o papel que a própria evolução de nossa espécie
nos legou: guardiões da vida planetária (Jonas, 2007). Somos parte integrante de um
sistema complexo e interdependente, e nossa missão é garantir a manutenção e o
florescimento desse sistema. Isso implica produzir ciências, tecnologias e políticas que
tenham como foco central a sustentação da vida, em vez do lucro imediato ou do
crescimento desenfreado.
A co-criação com a Natureza é uma resposta urgente aos desafios impostos pela sociedade
de risco, onde a busca por desenvolvimento econômico gerou riscos globais que ameaçam a
sobrevivência da própria humanidade. Ulrich Beck (2011) já alertava que os riscos modernos
são globais, invisíveis e democráticos, mas a verdade é que seus impactos são sentidos de
forma desigual. Enquanto as elites podem se proteger dos efeitos mais severos das mudanças
climáticas, as populações mais vulneráveis – como os povos indígenas e as comunidades
tradicionais da Amazônia – são as primeiras a sofrer as consequências (Acselrad, 2011).
Re vista Bem Viv er Compartilhando Saberes, V. 2, Nº 1 - Janeiro a Junh o/2025