ARTIGOS
AMAZÔNIA EM RISCO: REFLEXÕES PARA UMA
SOCIEDADE DE CUIDADO DA VIDA
AMAZON AT RISK: REFLECTIONS FOR A LIFE CARE
SOCIETY
AMAZONÍA EN RIESGO: REFLEXIONES PARA UNA
SOCIEDAD DEL CUIDADO DE LA VIDA
Davi Souza Cruz Emerick1
RESUMO
A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, enfrenta uma crise que
reflete os desafios da sociedade de risco, conceito desenvolvido por Ulrich
Beck. Este artigo explora três frentes essenciais para superar essa crise:
reparação dos danos causados, co-criação com a Natureza e
fortalecimento da cultura e identidade do cuidado. Sugere-se a
possibilidade de transicionarmos de uma sociedade de risco para uma
sociedade do cuidado da vida, caso essas frentes sejam seriamente
implementadas por todos. Essa transição não é uma necessidade, é a
última chance que temos para redefinirmos nossa relação com o planeta e
uns com os outros, pois a vida, como conhecemos, depende da nossa
capacidade de assumir nossa responsabilidade como guardiões da Terra.
A Amazônia emerge não apenas como um ecossistema em perigo, mas
como um chamado para repensarmos nossa relação com a Natureza e
construirmos um futuro mais justo e sustentável.
s o ci e d a d e d e r i s c o ; A m a z ô n i a ; d i r e i t o s d a Palavras-chave:
1 Escola da Magistratura do Estado de Rondônia (EMERON). E-mail:
emerick_daviadv@outlook.com
Re vista Bem Viv er Compartilhando Saberes, V. 2, Nº 1 - Janeiro a Junh o/2025
Natureza; sociedade do cuidado; cuidado.
Leandro Aparecido Fonseca Missiatto2
Universidade Federal de Rondônia (UNIR). E-mail: leandro.missiatto@unir.br
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ABSTRACT
The Amazon, the largest tropical forest in the world, is facing a crisis that reflects the
challenges of the risk society, a concept developed by Ulrich Beck. This article explores
three essential fronts to overcome this crisis: repairing the damage caused, co-creation with
Nature and strengthening the culture and identity of care. It is suggested that we can
transition from a risk society to a life-care society, if these fronts are seriously implemented
by everyone. This transition is not a necessity, it is the last chance we have to redefine our
relationship with the planet and with each other, as life, as we know it, depends on our ability
to assume our responsibility as guardians of the Earth. The Amazon emerges not only as an
ecosystem in danger, but as a call to rethink our relationship with Nature and build a fairer
and more sustainable future.
risk society; Amazon; rights of Nature; care society; careful.Keywords:
RESUMEN
La Amazonía, la mayor selva tropical del mundo, enfrenta una crisis que refleja los desafíos
de la sociedad del riesgo, concepto desarrollado por Ulrich Beck. Este artículo explora tres
frentes esenciales para superar esta crisis: la reparación de los daños causados, la co-
creación con la Naturaleza y el fortalecimiento de la cultura e identidad del cuidado. Se
sugiere la posibilidad de que transitemos de una sociedad del riesgo a una sociedad del
cuidado de la vida, en caso de que estos frentes sean implementados seriamente por todos.
Esta transición no es una necesidad, es la última oportunidad que tenemos para redefinir
nuestra relación con el planeta y entre nosotros, ya que la vida, tal como la conocemos,
depende de nuestra capacidad de asumir nuestra responsabilidad como guardianes de la
Tierra. La Amazonía emerge no solo como un ecosistema en peligro, sino como un llamado
a repensar nuestra relación con la Naturaleza y construir un futuro más justo y sostenible.
sociedad del riesgo; Amazonía; derechos de la Naturaleza; sociedad del Palabras clave:
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cuidado; cuidado.
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Estamos imersos em um paradoxo que desafia nossa compreensão de progresso e
humanidade. A mesma ciência que nos libertou de doenças e encurtou distâncias agora nos
confronta com um cenário de incertezas climáticas e ecológicas. Ulrich Beck (2011), em sua
teoria da sociedade de risco, nos alerta que a busca desenfreada por desenvolvimento e
riqueza gera, inevitavelmente, riscos globais que transcendem fronteiras e gerações. Esses
riscos, antes invisíveis ou minimizados, hoje se materializam de forma dramática:
tempestades cada vez mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais devastadores
e a lenta, porém implacável, erosão da biodiversidade.
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INTRODUÇÃO
Para tanto, a sociedade de risco é aquela em
que o próprio progresso se torna uma ameaça,
onde as consequências das ações, muitas vezes
irreversíveis, recaem sobre o planeta e as
futuras gerações, humanas e não humanas
(Beck, 2011). Hoje, no centro dessa sociedade
de risco está a Amazônia, como um grande
espelho de nossa relação descuidada com a
Natureza, refletindo o colapso ambiental que se
entrelaça com injustiças sociais e dilemas
éticos, convocando-nos a repensar nossos
valores e escolhas.
Ao escrevermos aqui Natureza como um nome
próprio, reconhecemos sua importância não
apenas como um conjunto de recursos, mas
como um sujeito de direitos. Essa concepção
implica que a Natureza, enquanto entidade viva,
possui um valor intrínseco e merece proteção
legal e respeito ético (Oliveira, 2021). Ao atribuir
à Natureza o status de um sujeito de direitos,
estamos afirmando que suas forças vitais,
ecossistemas e a interconexão entre seres vivos
têm um papel fundamental na manutenção da
vida e do bem-estar humano (Gudynas, 2020).
Isso nos leva a reavaliar nosso papel como
cuidadores, em vez de exploradores,
promovendo uma relação mais harmoniosa e
sustentável com o mundo natural. Portanto, a
proteção da Natureza não é apenas uma
questão de preservação ambiental, mas um
imperativo ético que reflete um compromisso
com a justiça intergeracional e a solidariedade
entre todos os seres que compartilham este
planeta.
Nesse sentido, a Amazônia não é apenas uma floresta, é um organismo vivo, uma teia
complexa de interdependências que sustenta não apenas espécies, mas culturas, tradições
e modos de existência. No entanto, ela está sendo transformada em um campo de batalha
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onde interesses econômicos e a sobrevivência do planeta se confrontam (Salles, 2022). Em
2024, o rio Madeira, majestoso em sua abundância de água, sofreu com uma de suas piores
secas (Nestlehner, 2024); enquanto isso, no mesmo ano, mais de 11 mil pessoas foram
deslocadas de suas casas devido à inundação causada pelo Rio Acre/AC, sem mencionar a
grande quantidade de espécies de animais que também foram impactadas (Monteiro;
Menezes, 2024). Esses fenômenos, antes exceções, agora são parte de um cotidiano que
normaliza o anormal. E nesse cenário, as vozes mais afetadas indígenas, ribeirinhos,
populações tradicionais são frequentemente silenciadas, suas lutas reduzidas a números
em relatórios ou a disputas jurídicas.
O que antes era visto como um problema de ecologistas e ambientalistas, passou a ser uma
demanda que cresce no judiciário brasileiro. Isso, porque, o desmatamento na Amazônia
não é um ato isolado, é um sintoma de um sistema que prioriza o lucro imediato em
detrimento do futuro coletivo, afetando duramente às possibilidades da manutenção da vida
na Terra (Marques, 2023). A pecuária, a agricultura extensiva e o garimpo são atividades
que geram riqueza para poucos, mas deixam um rastro de destruição que afeta a todos
(Salles, 2022). E enquanto o Código Florestal (Brasil, 2012) tenta, em teoria, equilibrar
interesses, sua aplicação é falha, permeada por brechas que permitem a impunidade e a
continuidade da degradação. Assim, a lei, que deveria ser um instrumento de justiça, torna-
se, muitas vezes, cúmplice da injustiça.
Neste artigo buscamos explorar três frentes prioritárias para a proteção da Amazônia: a
reparação dos danos causados, a co-criação com a Natureza e o fortalecimento da cultura e
identidade do cuidado da vida. O objetivo é de que estas reflexões colaborem com as
discussões a cerca de respostas para um futuro possível para a Amazônia e a vida na Terra,
como a conhecemos.
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RUMO A UMA SOCIEDADE DE CUIDADO DA VIDA
Mas há esperança. A crise na Amazônia é também uma
oportunidade para repensarmos nossas escolhas e
valores. Como operadores do Direito, como cientistas,
como cidadãos, somos convidados a transitar nesse
terreno complexo, buscando soluções que harmonizem
desenvolvimento e preservação. Precisamos reparar os
danos causados à Natureza, efetivar os pagamentos por
serviços ambientais, desenvolver cadeias de suprimento
sustentáveis, fortalecer a economia circular de
comunidades locais, essas são apenas algumas das
possibilidades que podemos explorar. Mas, acima de
tudo, precisamos de uma mudança de mentalidade, uma
transição de uma cultura de exploração para uma cultura
de cuidado. Nesse sentido, acreditamos haver três
frentes prioritárias para a proteção da Amazônia, sendo a
reparão, ação co-criadora com a Natureza e
fortalecimento da cultura e identidades do cuidado da
vida.
Acreditamos que para enfrentar a crise ambiental de modo justo, é urgente o dano que foi
feito à Natureza. Não basta olhar para frente e planejar um futuro sustentável sem que
aqueles que foram vitimados sejam comunidades tradicionais, povos indígenas, ou mesmo
as incontáveis espécies de plantas e animais tenham seus danos reparados. Esse é um
valor poderoso presente na Justiça Restaurativa (JR).
A JR é um conceito que vai além da punição ou compensação financeira, trata-se de uma
concepção diferente de justiça que busca restaurar vínculos e reparar os danos causados,
priorizando a reconstrução de relações e a cura de feridas (Zehr, 2012). Hoje, se há algo
que precisa ser urgentemente restaurado é a nossa relação com a terra, rios, florestas e
com os demais seres com quem dividimos a casa-Terra. Por séculos, exploramos a
Natureza de forma predatória, rompendo os laços de equilíbrio e respeito que deveriam nos
unir ao meio ambiente (Acosta, 2016). A Justiça Restaurativa, nesse sentido, convida-nos a
reconhecer os danos causados, assumir responsabilidade e buscar ativamente a reparação.
Isso significa restabelecer a conexão com a Natureza, não apenas através de ações
práticas como reflorestamento e recuperação de ecossistemas, mas também por meio de
uma mudança cultural e espiritual. Devemos aprender a ouvir a voz da terra, honrar seus
ciclos e reconhecer que somos parte integrante dela, não seus donos (Krenak, 2020). A
restauração desses vínculos é fundamental para construir um futuro em que a humanidade e
a Natureza coexistam em harmonia, respeitando os direitos de todos os seres vivos.
A JR, assim como os saberes ancestrais de povos e comunidades tradicionais, nos ensina
que a verdadeira reconciliação começa com o reconhecimento do erro e a restauração do
que foi perdido. Ferimos a terra, poluímos os rios, devastamos as florestas e, com isso,
machucamos seus filhos e filhas. Milhões de espécies foram atingidas, e ecossistemas
inteiros foram desequilibrados. Reparar é um ato de responsabilidade e respeito. Isso pode
ser feito por meio da restauração florestal, como o reflorestamento de áreas degradadas
com espécies nativas, a revitalização de bacias hidrográficas contaminadas, e a criação de
corredores ecológicos que reconectem habitats fragmentados. Mas é preciso para além
disso, é essencial indenizar e apoiar as comunidades afetadas, garantindo que tenham
acesso a recursos, terras e meios de subsistência sustentáveis; descolonizar nossa matriz
de aprendizagens e saberes, dando evidência aos saberes de povos indígenas, quilombolas
e outras comunidades que historicamente vivem em respeito com a Natureza; e, sobretudo,
reconstruir nosso sistema de justiça para que ele atue em perspectiva da Natureza como
sujeito de direitos. Reparar é mais que um dever, é um compromisso ético com a vida e com
as gerações futuras.
A segunda frente de ação para superação da crise ecológica imposta pela sociedade de
risco, é avançarmos relação de ação co-criadora com a Natureza. Entendemos como ação
co-criadora, uma mudança radical na forma como nos relacionamos com a Natureza, saindo
de uma lógica de dominação e exploração para uma de parceria, harmonia e promoção da
vida. Não se trata mais de enxergar a terra, a água e as florestas como recursos a serem
extraídos e consumidos, mas de assumir o papel que a própria evolução de nossa espécie
nos legou: guardiões da vida planetária (Jonas, 2007). Somos parte integrante de um
sistema complexo e interdependente, e nossa missão é garantir a manutenção e o
florescimento desse sistema. Isso implica produzir ciências, tecnologias e políticas que
tenham como foco central a sustentação da vida, em vez do lucro imediato ou do
crescimento desenfreado.
A co-criação com a Natureza é uma resposta urgente aos desafios impostos pela sociedade
de risco, onde a busca por desenvolvimento econômico gerou riscos globais que ameaçam a
sobrevivência da própria humanidade. Ulrich Beck (2011) já alertava que os riscos modernos
são globais, invisíveis e democráticos, mas a verdade é que seus impactos são sentidos de
forma desigual. Enquanto as elites podem se proteger dos efeitos mais severos das mudanças
climáticas, as populações mais vulneráveis como os povos indígenas e as comunidades
tradicionais da Amazônia são as primeiras a sofrer as consequências (Acselrad, 2011).
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A co-criação propõe uma reconciliação com a Natureza,
onde os direitos dos ecossistemas e das comunidades que
dependem deles sejam respeitados e protegidos.
Um exemplo claro de como a co-criação pode ser ignorada
é o projeto político de extração de petróleo na foz do rio
Amazonas. Apesar do posicionamento do atual governo
Lula de que não haverá impactos significativos no
ecossistema (Mazui, 2025), essa visão é um autoengano. A
extração de combustíveis fósseis, como o petróleo, uma das
principais causas do aquecimento global (Shirts, 2023),
além de representar riscos imensos para a biodiversidade e
as comunidades locais. Vazamentos de óleo, contaminação
de rios e a destruição de habitats marinhos são apenas
alguns dos danos irreversíveis que podem ocorrer. A ação
de co-criação, por outro lado, caminha na direção oposta:
propõe a transição para energias renováveis, o investimento
em tecnologias limpas e a proteção integral de
ecossistemas vitais como a Amazônia. Em vez de apostar
em fontes de energia obsoletas e poluentes, devemos
investir em soluções que promovam a regeneração
ecológica e a justiça climática.
Outro exemplo prático de co-criação é o uso inteligente e
sustentável das terras já desmatadas. Na Amazônia,
milhões de hectares de floresta foram destruídos para dar
lugar à pecuária, à agricultura extensiva e ao garimpo
(Salles, 2022). Em vez de avançar sobre novas áreas de
floresta, podemos reutilizar áreas degradadas para práticas
agrícolas regenerativas, agroflorestas e sistemas de
produção que restauram o solo e a biodiversidade (Santos;
Pereira; Veríssimo, 2013). A agrofloresta, por exemplo,
combina o cultivo de alimentos com a preservação da
floresta, criando um sistema produtivo que imita a Natureza
e gera benefícios tanto para os produtores quanto para o
meio ambiente (Steebock, 2023). Além disso, a restauração
de áreas desmatadas pode ser uma fonte de emprego e
renda para as comunidades locais, alinhando
desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
A co-criação com a Natureza também exige uma mudança
profunda em nossa visão de progresso e desenvolvimento.
Não se trata de dominar ou controlar o meio ambiente, mas
de trabalhar em harmonia com ele, reconhecendo que
somos parte de um todo maior. Isso envolve a valorização
dos saberes tradicionais, como o conhecimento indígena
sobre a floresta, e a integração desses saberes com as
tecnologias modernas. A ciência e a inovação têm um papel
crucial nesse processo, mas precisam ser guiadas por uma
ética que priorize a manutenção da vida e a equidade
socioambiental.
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A crise ecológica não será superada com mais exploração ou com soluções superficiais. Ela
exige uma transformação cultural e sistêmica, onde passemos de uma sociedade de risco
para uma sociedade de cuidado e co-criação. Isso significa repensar nossos modelos de
produção e consumo, fortalecer a governança ambiental e garantir que as decisões políticas
sejam tomadas com base no bem-estar coletivo e na proteção dos ecossistemas (Wera,
2024). A Amazônia, como símbolo da biodiversidade e da resistência, é um chamado para
essa mudança. Não podemos mais adiar essa transição. O futuro da humanidade e do
planeta depende da nossa capacidade de assumir nossa responsabilidade como guardiões
da vida, não apenas para as gerações presentes, mas para todas as formas de vida que
compartilham este planeta conosco (Krenak, 2020). A co-criação com a Natureza não é uma
opção, é uma necessidade urgente e um compromisso ético com o presente e o futuro.
Já a terceira frente prioritária para a proteção da Amazônia é o fortalecimento da cultura e
identidade do cuidado da vida. Essa dimensão é fundamental para transicionarmos de uma
sociedade de risco, marcada pela exploração e pela produção de ameaças globais, para
uma sociedade do cuidado da vida, onde a empatia, a solidariedade e a responsabilidade
coletiva sejam os pilares que guiam nossas ações. Enquanto a sociedade de risco prioriza o
lucro e o crescimento a qualquer custo (Beck, 2011), a sociedade do cuidado propõe uma
mudança de paradigma, onde o bem-estar de todos os seres vivos e a saúde dos
ecossistemas sejam colocados no centro das decisões humanas.
Um dos caminhos para essa transição é a educação, pois as escolas têm um papel crucial
ao ensinar valores de cooperação, solidariedade e respeito à Natureza desde a infância
(Brasil, 1996). Imagine um currículo que não apenas transmita conhecimentos científicos,
mas também cultive a consciência ecológica e a empatia. Crianças aprendendo a cuidar de
hortas comunitárias, a valorizar os saberes tradicionais dos povos indígenas e a
compreender que a riqueza de um país não se mede apenas pelo Produto Interno Bruto
(PIB), mas pela sua capacidade de proteger a vida e promover a justiça socioambiental.
Essas práticas educativas podem formar gerações que vejam a Natureza não como um
recurso a ser explorado, mas como um parceiro a ser cuidado.
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A riqueza dos países, nessa nova perspectiva, seria avaliada por sua capacidade empática
e compassiva. Em vez de competir por índices de crescimento econômico, as nações
poderiam ser medidas por sua habilidade de preservar ecossistemas, garantir direitos da
vida, direitos básicos de humanos e não humanos, e promover a equidade socioecológica.
Um exemplo disso seria o reconhecimento internacional de países que investem em políticas
de reparação ambiental, proteção dos direitos indígenas e inclusão das comunidades
tradicionais no processo decisório.
Para que essa realidade aconteça é crucial fortalecer as redes de cuidado que já existem e
se manifestam na vida daqueles que resistem às dominações. Povos indígenas, quilombolas
e comunidades tradicionais são guardiões de saberes ancestrais que há milênios promovem
a harmonia entre humanos e Natureza (Santos, 2023). Suas práticas de manejo sustentável,
seus rituais de conexão com a terra e sua luta pela preservação dos territórios são
exemplos vivos de uma cultura do cuidado (Ferdinand, 2022). Fortalecer essas redes
significa apoiar políticas que garantam a demarcação de terras indígenas, o reconhecimento
dos direitos quilombolas e a valorização dos modos de vida tradicionais. Significa também
criar espaços de diálogo onde esses saberes possam ser compartilhados e integrados às
políticas públicas e às práticas educacionais.
Assim, a transição para uma sociedade do cuidado da vida também envolve a mobilização
coletiva. Movimentos sociais, organizações não governamentais, comunidades locais e
indivíduos podem se unir em torno de causas comuns, como a proteção da Amazônia, a
defesa dos direitos humanos e a promoção da justiça climática. Essas redes de cuidado não
precisam ser criadas, já estão em ação, mas precisam ser disseminadas, para tanto, é
necessário investimento em recursos e apoio institucional para ampliar seu impacto.
A Amazônia, como símbolo da resistência e da diversidade, nos convoca a essa mudança.
Ela não é apenas um território a ser protegido, mas um modelo de como podemos viver em
harmonia com a Natureza. Ao fortalecer a cultura e a identidade do cuidado, estamos não
apenas preservando a floresta, mas também construindo um futuro onde a vida, em todas
as suas formas, seja valorizada e protegida. Esse é o caminho para superar a sociedade de
risco e abraçar uma nova era de responsabilidade, empatia e coexistência.
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A Amazônia não é apenas uma floresta, é um espelho que reflete as escolhas da
humanidade. Ela nos confronta com as consequências da sociedade de risco, onde o
progresso desenfreado gerou crises climáticas, injustiças sociais e a erosão da
biodiversidade. Mas, ao mesmo tempo, ela nos oferece um caminho de esperança: a
possibilidade de transicionar para uma sociedade do cuidado da vida, onde a empatia, a
solidariedade e a responsabilidade coletiva guiem nossas ações.
Este artigo buscou explorar três frentes prioritárias para a proteção da Amazônia: a
reparação dos danos causados, a co-criação com a Natureza e o fortalecimento da cultura e
identidade do cuidado da vida. Cada uma dessas frentes é essencial para superar os
desafios atuais e construir um futuro sustentável. Reparar é um ato de justiça e
responsabilidade; co-criar é um convite à harmonia e à inovação; e fortalecer a cultura do
cuidado da vida é a retomada de valores e práticas ancestrais que promovem formas justas
de relacionamento com a vida.
A Amazônia, com sua imensa diversidade biológica e cultural, nos ensina que a verdadeira
riqueza não está na exploração de recursos, mas na capacidade de proteger e regenerar a
vida. Povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais são exemplos vivos dessa
ética do cuidado da vida, mostrando que é possível viver em equilíbrio com a Natureza.
Suas lutas e saberes devem ser reconhecidos, valorizados e integrados às políticas públicas
e às práticas educacionais.
No entanto, a proteção da Amazônia não é uma tarefa apenas para os governos ou para as
comunidades locais. É uma responsabilidade coletiva. Como cidadãos, podemos apoiar
iniciativas sustentáveis, pressionar por políticas ambientais mais rigorosas e repensar
nossos hábitos de consumo. Como educadores, podemos ensinar as novas gerações a
valorizar a Natureza e a praticar a empatia. Como cientistas e tecnólogos, podemos
desenvolver soluções inovadoras que promovam a reparação ecológica e a justiça climática.
Este é um momento decisivo. As escolhas que fizermos hoje ecoarão por gerações. A
Amazônia clama por nós, não apenas como um bioma a ser preservado, mas como um
símbolo da resistência e da resiliência da vida. Ela nos convida a abandonar a lógica da
exploração e a abraçar a ética do cuidado da vida. A transição para uma sociedade do
cuidado da vida não é uma necessidade, é a última chance que temos para redefinirmos
nossa relação com o planeta e uns com os outros, pois a vida, como conhecemos, depende
da nossa capacidade de assumir nossa responsabilidade como guardiões da Terra. Cuidar
da Amazônia é cuidar de nós mesmos, das gerações futuras e de todas as formas de vida
que compartilham este planeta conosco. O tempo de agir é agora.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
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Davi Souza Cruz Emerick. Graduado em Direito pela UNESC- Faculdades Integradas de Cacoal
em 2021, Pós graduado em Direito Tributário pelo IBMEC em 2022, Pós graduado em Direito
Médico pelo CENTRO UNIVERSITÁRIO AMPARENSE - UNIFIA em 2024, Pós-graduando em
Direito para a Carreira da Magistratura pela Escola da Magistratura do Estado de Rondônia
EMERON em 2025.
Leandro Aparecido Fonseca Missiatto. Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade do Vale
do Rio dos Sinos (Unisinos), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia
(UNIR) com conclusão em 2017, e graduado em Psicologia pela Faculdade de Ciências
Biomédicas de Cacoal (Facimed) em 2012. Analista Processual na Especialidade de Psicologia
no Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia (TJRO). Membro da equipe de especialistas do
Programa Harmony With Nature das Nações Unidas (ONU). Professor do Programa de Pós-
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