
No Brasil, os impactos das mudanças climáticas vêm se tornando cada vez mais visíveis e
dolorosos. Em 2014, a cheia histórica do Rio Madeira, em Rondônia, atingiu mais de 30 mil
famílias apenas em Porto Velho. Muitas pessoas perderam suas casas, plantações, animais
e tiveram que abandonar comunidades inteiras, sofrendo não apenas com prejuízos
materiais, mas também com a ruptura dos laços familiares, sociais e culturais (Franca;
Mendonça, 2019).
Mais recentemente, em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou um dos maiores desastres
climáticos de sua história: tempestades e enchentes devastadoras afetaram mais de 2,3
milhões de pessoas, atingindo 471 municípios — quase 95% de todas as cidades gaúchas.
No pior momento das chuvas, cerca de 79 mil pessoas ficaram sem abrigo, muitas delas
tendo suas casas levadas ou destruídas pela força das águas (Maringo et al., 2024). Além
dos danos visíveis, houve perdas irreparáveis: vidas interrompidas, histórias desfeitas, lares
engolidos pela lama, memórias apagadas junto com fotografias, documentos, objetos de
valor afetivo e raízes familiares dificilmente reconstruídas (Rizzotto; Costa; Lobato, 2024).
Nessas situações, o sofrimento vai muito além da perda de bens materiais. O luto por entes
queridos, a sensação de insegurança e a impotência diante do que não pode ser recuperado
geram ansiedade, medo, depressão e traumas psicológicos (Van Susteren; Pollack, 2019).
Muitas vezes, as pessoas relatam insônia, crises de pânico, tristeza profunda e dificuldade
de se adaptar a uma nova rotina longe de casa. O impacto é ainda maior quando a perda
envolve não só o espaço físico, mas também a história, as lembranças e o sentimento de
pertencimento (Senay et al., 2021).
Situações concretas: cheias, perdas e traumas
Quem mais sente os efeitos psicológicos?
As mudanças climáticas, embora impactem todas as pessoas, não o fazem de maneira
equitativa (Blank, 2015). As desigualdades estruturais, como as de raça, gênero, classe
social, condição física e geopolítica, são exacerbadas em tempos de crise ambiental. Por
exemplo, comunidades racializadas frequentemente habitam áreas mais suscetíveis a
desastres naturais, devido a políticas históricas de segregação e desvalorização territorial.
Mulheres, muitas vezes responsáveis pelas tarefas domésticas e cuidado dos filhos,
enfrentam desafios adicionais quando recursos naturais se tornam escassos, como água e
alimentos. Pessoas com deficiência podem encontrar obstáculos em acessar abrigos ou
assistência adequados durante eventos climáticos extremos.
Outra problematização diz respeito a atuação dos sistemas que estruturam as
desigualdades, já que operam de modo interseccional, ou seja, eles se cruzam e se
reforçam reciprocamente, agravando ainda mais a vulnerabilidade de determinadas pessoas
e grupos diante das crises ambientais (Lykke, 2009). Interseccionalidade é uma abordagem
que reconhece que as categorias de identidade, como raça, gênero, classe social, condição
física e origem étnica, não atuam isoladamente, mas se interligam, formando experiências
únicas de opressão ou privilégio (Crenshaw,1991). Essa perspectiva evidencia que
indivíduos que pertencem a múltiplos grupos vulneráveis enfrentam riscos ampliados e
impeditivos adicionais na tentativa de lidar com os efeitos das mudanças climáticas. Assim,
a interseccionalidade impacta ainda mais essas pessoas, pois suas vulnerabilidades se
acumulam, dificultando o acesso a recursos, direitos e políticas de proteção e adaptação,
além de comprometer sua saúde mental e física em situações de desastres ambientais
(Duarte; Silva; Lopes, 2022).
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Re vista Bem Vi ver Compartilhando Sabere s, V. 1, Nº 2 - Ag osto a Dezembro/2024