ARTIGOS
MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SAÚDE MENTAL: QUANDO
O CLIMA TAMBÉM AFETA EMOÇÕES E RELAÇÕES
CLIMATE CHANGE AND MENTAL HEALTH: WHEN
CLIMATE ALSO AFFECTS EMOTIONS AND
RELATIONSHIPS
CAMBIO CLIMÁTICO Y SALUD MENTAL: CUANDO EL
CLIMA TAMBIÉN AFECTA LAS EMOCIONES Y LAS
RELACIONES
Anderson Ricardo Martins
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RESUMO
Este artigo tem como objetivo explorar os efeitos das mudanças climáticas
na saúde mental, destacando conceitos como eco-ansiedade e
solastalgia, além de analisar como populações vulneráveis são mais
afetadas emocionalmente por desastres ambientais. As reflexões
decorrem de análises da literatura que aponta para a crescente incidência
de sofrimento psicológico ligado à degradação ambiental. As discussões
abordam a relação histórica e cultural entre saúde mental e o meio
ambiente, enfatizando a importância de fortalecer redes de apoio, espaços
de diálogo e políticas públicas que promovam justiça social e ambiental.
Ressalta-se a necessidade de transformação na formação de profissionais
de saúde mental, que devem estar preparados para atuar em contextos de
desastres climáticos, promovendo ações que integrem cuidado
psicológico, defesa da Natureza e engajamento social. As principais
conclusões apontam que as desigualdades estruturais intensificam os
efeitos psicológicos das mudanças climáticas, especialmente entre grupos
marginalizados, e que a compreensão dessas conexões é fundamental
para o desenvolvimento de estratégias de resiliência e recuperação
emocional. Para avançar, recomenda-se uma abordagem interdisciplinar,
com maior ênfase na defesa ambiental, na formação profissional e na
implementação de políticas de justiça social, promovendo um futuro mais
sustentável e emocionalmente saudável para todos.
mudanças climáticas; saúde mental; eco-ansiedade; Palavras-chave:
solastalgia; justiça social.
Leandro Aparecido Fonseca Missiatto
2
1 Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO). E-mail: andersonmartins@tjro.jus.br
Universidade Federal de Rondônia (UNIR). E-mail: leandro.missiatto@gmail.com
2
Douglas Antoni de Jesus Sousa
3
Superintendência de Educação do Estado de Rondônia.
E-mail: doug.antoni29@gmail.com
3
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ABSTRACT
This article aims to explore the effects of climate change on mental health, highlighting
concepts such as eco-anxiety and solastalgia, in addition to analyzing how vulnerable
populations are more emotionally affected by environmental disasters. The reflections arise
from analyzes of the literature that points to the growing incidence of psychological suffering
linked to environmental degradation. The discussions address the historical and cultural
relationship between mental health and the environment, emphasizing the importance of
strengthening support networks, spaces for dialogue and public policies that promote social
and environmental justice. The need for transformation in the training of mental health
professionals is highlighted, who must be prepared to work in contexts of climate disasters,
promoting actions that integrate psychological care, defense of Nature and social
engagement. The main conclusions indicate that structural inequalities intensify the
psychological effects of climate change, especially among marginalized groups, and that
understanding these connections is fundamental for the development of resilience and
emotional recovery strategies. To move forward, an interdisciplinary approach is
recommended, with greater emphasis on environmental defense, professional training and
the implementation of social justice policies, promoting a more sustainable and emotionally
healthy future for everyone.
climate change; mental health; eco-anxiety; solastalgia; social justice.Keywords:
RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo explorar los efectos del cambio climático en la salud
mental, destacando conceptos como ecoansiedad y solastalgia, además de analizar cómo
las poblaciones vulnerables se ven más afectadas emocionalmente por los desastres
ambientales. Las reflexiones surgen de análisis de la literatura que señala la creciente
incidencia del sufrimiento psicológico vinculado a la degradación ambiental. Los debates
abordan la relación histórica y cultural entre la salud mental y el medio ambiente,
enfatizando la importancia de fortalecer redes de apoyo, espacios de diálogo y políticas
públicas que promuevan la justicia social y ambiental. Se destaca la necesidad de
transformación en la formación de profesionales de la salud mental, quienes deben estar
preparados para actuar en contextos de desastres climáticos, promoviendo acciones que
integren la atención psicológica, la defensa de la Naturaleza y el compromiso social. Las
principales conclusiones indican que las desigualdades estructurales intensifican los efectos
psicológicos del cambio climático, especialmente entre los grupos marginados, y que
comprender estas conexiones es fundamental para el desarrollo de estrategias de resiliencia
y recuperación emocional. Para avanzar, se recomienda un enfoque interdisciplinario, con
mayor énfasis en la defensa ambiental, la formación profesional y la implementación de
políticas de justicia social, promoviendo un futuro más sostenible y emocionalmente
saludable para todos.
cambio climático; salud mental; ecoansiedad; solastalgia; justicia social.Palabras clave:
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INTRODUÇÃO
DESENVOLVIMENTO
O planeta tem ficado cada vez mais
quente e isso não altera apenas os
ecossistemas, a humanidade tem passado
por profundas transformações em
decorrência desse fenômeno (IPCC,
2018). Seja na ordem individual ou
coletiva, as mudanças climáticas
decorrentes do aquecimento global têm
influência nas experiências humanas e no
modo como nos relacionamos.
As mudanças climáticas, antes consideradas uma ameaça futura, já se fazem presentes no
cotidiano global, alterando paisagens, modos de vida e, de forma cada vez mais evidente,
impactando a saúde mental das populações (Szyniszewska et al., 2024). Eventos extremos
como ondas de calor, secas, enchentes e queimadas, aliados à incerteza sobre o futuro,
não apenas afetam o corpo físico, mas também geram profundas repercussões emocionais
e sociais (IPCC, 2019). Este artigo tem como objetivo explorar os efeitos psicológicos das
mudanças climáticas, com foco em conceitos como eco-ansiedade e solastalgia, e discutir
como esses fenômenos afetam indivíduos e comunidades, especialmente aqueles em
situações de vulnerabilidade.
Para realizar essa reflexão, o artigo aborda os conceitos básicos para estas discussões e se
baseia em estudos, além de casos que ilustram os impactos concretos das mudanças
climáticas na saúde mental, utilizando exemplos recentes de desastres ambientais no Brasil,
como as cheias do Rio Madeira em 2014 e as enchentes devastadoras no Rio Grande do
Sul em 2024. O texto aborda ainda a desigualdade na distribuição desses impactos,
destacando como grupos marginalizados como comunidades tradicionais, mulheres,
crianças e idosos são afetados de forma mais intensa.
A partir dessa análise, o artigo propõe uma reflexão sobre a importância de integrar a saúde
mental às discussões sobre justiça climática e ambiental. Argumenta-se que cuidar da Terra
e promover a resiliência emocional são ações interligadas, essenciais para construir um
futuro mais equilibrado e saudável para todos. Por meio de uma abordagem interdisciplinar,
que combina insights da psicologia, sociologia e estudos ambientais, o texto busca
contribuir para a compreensão dos desafios psíquicos impostos pela crise climática e
apontar caminhos para o cuidado coletivo e a transformação social.
O que é eco-ansiedade e solastalgia?
Por aquecimento global, entende-se o fenômeno
do aumento gradual das temperaturas médias
(GEE) resultantes de atividades humanas, como a queima de
combustíveis fósseis, desmatamento e atividades industriais
(Batibeniz; Hauser; Seneviratne, 2023).
da atmosfera terrestre e dos oceanos, causado
principalmente pela emissão de gases de efeito estufa
(
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Este fenômeno tem um impacto significativo sobre o clima, levando a mudanças climáticas,
que incluem alterações nos padrões de precipitação, aumento na frequência e intensidade
de eventos climáticos extremos, como furacões, secas e inundações, e outras perturbações
ambientais (IPCC, 2019).
As primeiras evidências científicas de que as ações humanas estavam alterando a
temperatura da Terra, são de meados do século XIX, desde então, cientistas de todo o
mundo tem reunido esforços para catalogar e compreender esse fenômeno (Wilson; Law,
2009). Uma importante instituição que atua nesta área é a Organização das Nações Unidas
(ONU), que desde 1988 articula e gerencia o Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC na sigla em inglês) organização dedicada a avaliar o conhecimento
científico sobre mudanças climáticas. O IPCC fornece relatórios abrangentes que agregam
pesquisas realizadas em diversas localidades no mundo por entidades públicas e privadas
independentes, delineando o estado atual do clima da Terra, seus possíveis futuros
impactos, e opções de mitigação e adaptação (IPCC, 2023).
Com o aumento na conscientização sobre os impactos do aquecimento global, o fenômeno
da eco-ansiedade tem se tornado mais prevalente. Segundo a Associação Americana de
Psicologia (APA, sigla para o nome em inglês), a eco-ansiedade está relacionada ao
sofrimento psicológico derivado da preocupação com a deterioração ambiental e as
implicações que isso tem para o futuro do planeta e das próximas gerações (APA, 2017).
Esse tipo de ansiedade pode impactar significativamente a saúde mental e o bem-estar das
pessoas, resultando em sentimentos de medo, raiva, tristeza e desamparo. Os sentimentos
comuns na eco-ansiedade são medo, tristeza, raiva ou até mesmo uma angústia difusa
diante do que está acontecendo com a Terra (Betro, 2024)
Além da eco-ansiedade, há também o conceito de
solastalgia. Solastalgia é uma angústia emocional
experimentada por indivíduos que presenciam a
manipulação ambiental do lugar onde vivem, sem
poder fazer nada a respeito. Este termo foi cunhado
por Glenn Albrecht em 2007, e descreve a dor de
ver a destruição ou transformação de seu lugar de
origem em tempo real (Albrecht et al., 2007).
Assim, enquanto a nostalgia é o desejo de retornar
a um lugar ou tempo que já passou, a solastalgia é
a experiência do luto por um lugar enquanto ainda
se está nele, mas que já não é o mesmo devido às
mudanças (Cáceres et al., 2022). Compreender
essas tendências é crucial para abordar o campo
emergente das implicações psicológicas das
mudanças ambientais, permitindo que indivíduos e
comunidades desenvolvam resiliência e estratégias
adaptativas imediatas .
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No Brasil, os impactos das mudanças climáticas vêm se tornando cada vez mais visíveis e
dolorosos. Em 2014, a cheia histórica do Rio Madeira, em Rondônia, atingiu mais de 30 mil
famílias apenas em Porto Velho. Muitas pessoas perderam suas casas, plantações, animais
e tiveram que abandonar comunidades inteiras, sofrendo não apenas com prejuízos
materiais, mas também com a ruptura dos laços familiares, sociais e culturais (Franca;
Mendonça, 2019).
Mais recentemente, em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou um dos maiores desastres
climáticos de sua história: tempestades e enchentes devastadoras afetaram mais de 2,3
milhões de pessoas, atingindo 471 municípios quase 95% de todas as cidades gaúchas.
No pior momento das chuvas, cerca de 79 mil pessoas ficaram sem abrigo, muitas delas
tendo suas casas levadas ou destruídas pela força das águas (Maringo et al., 2024). Além
dos danos visíveis, houve perdas irreparáveis: vidas interrompidas, histórias desfeitas, lares
engolidos pela lama, memórias apagadas junto com fotografias, documentos, objetos de
valor afetivo e raízes familiares dificilmente reconstruídas (Rizzotto; Costa; Lobato, 2024).
Nessas situações, o sofrimento vai muito além da perda de bens materiais. O luto por entes
queridos, a sensação de insegurança e a impotência diante do que não pode ser recuperado
geram ansiedade, medo, depressão e traumas psicológicos (Van Susteren; Pollack, 2019).
Muitas vezes, as pessoas relatam insônia, crises de pânico, tristeza profunda e dificuldade
de se adaptar a uma nova rotina longe de casa. O impacto é ainda maior quando a perda
envolve não só o espaço físico, mas também a história, as lembranças e o sentimento de
pertencimento (Senay et al., 2021).
Situações concretas: cheias, perdas e traumas
Quem mais sente os efeitos psicológicos?
As mudanças climáticas, embora impactem todas as pessoas, não o fazem de maneira
equitativa (Blank, 2015). As desigualdades estruturais, como as de raça, gênero, classe
social, condição física e geopolítica, são exacerbadas em tempos de crise ambiental. Por
exemplo, comunidades racializadas frequentemente habitam áreas mais suscetíveis a
desastres naturais, devido a políticas históricas de segregação e desvalorização territorial.
Mulheres, muitas vezes responsáveis pelas tarefas domésticas e cuidado dos filhos,
enfrentam desafios adicionais quando recursos naturais se tornam escassos, como água e
alimentos. Pessoas com deficiência podem encontrar obstáculos em acessar abrigos ou
assistência adequados durante eventos climáticos extremos.
Outra problematização diz respeito a atuação dos sistemas que estruturam as
desigualdades, já que operam de modo interseccional, ou seja, eles se cruzam e se
reforçam reciprocamente, agravando ainda mais a vulnerabilidade de determinadas pessoas
e grupos diante das crises ambientais (Lykke, 2009). Interseccionalidade é uma abordagem
que reconhece que as categorias de identidade, como raça, gênero, classe social, condição
física e origem étnica, não atuam isoladamente, mas se interligam, formando experiências
únicas de opressão ou privilégio (Crenshaw,1991). Essa perspectiva evidencia que
indivíduos que pertencem a múltiplos grupos vulneráveis enfrentam riscos ampliados e
impeditivos adicionais na tentativa de lidar com os efeitos das mudanças climáticas. Assim,
a interseccionalidade impacta ainda mais essas pessoas, pois suas vulnerabilidades se
acumulam, dificultando o acesso a recursos, direitos e políticas de proteção e adaptação,
além de comprometer sua saúde mental e física em situações de desastres ambientais
(Duarte; Silva; Lopes, 2022).
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Além disso, a distribuição desigual de recursos
econômicos e o acesso limitado a decisões políticas
internacionais fazem com que nações em
desenvolvimento, e aquelas situadas em regiões
geograficamente vulneráveis, enfrentem as maiores
dificuldades para implementar estratégias de
mitigação e adaptação ao aquecimento global (Torres
et al., 2021). Esses países, frequentemente no Sul
Global, não apenas sofrem com os impactos
ambientais diretos, mas também com os indiretos,
como desestabilização econômica e social, que
intensificam os problemas de saúde mental dentro de
suas populações (Loose; Resende, 2024).
Nesse sentido, as populações historicamente
vulnerabilizadas como comunidades ribeirinhas,
indígenas, quilombolas, moradores de periferias
urbanas ou regiões sujeitas a desastres , por já
terem enfrentado diversos sistemas de dominação e
opressão, são particularmente suscetíveis ao
sofrimento psicológico decorrente dos eventos
climáticos intensos (Lykke, 2009). Esses grupos têm,
em geral, menor acesso a programas de saúde
mental, políticas públicas e suporte psicológico,
amplificando os efeitos negativos das mudanças
climáticas sobre sua saúde mental (Gianfredi et al.,
2024). O estresse adicional de lidar com condições
econômicas precárias pode limitar ainda mais sua
capacidade de adaptação, tornando a luta contra a
eco-ansiedade e a solastalgia mais desafiante.
Portanto, entender e mitigar os impactos desiguais
do clima é vital para abordar as mudanças climáticas
como um problema de justiça social, promovendo
intervenções que levem em consideração a
interseccionalidade das identidades e condições das
populações afetadas.
Saúde mental e Natureza
A conexão entre saúde mental e ambiente é uma
relação profundamente enraizada na história da
humanidade (Ibanez; Zimmerman, 2023). Povos
tradicionais, indígenas e comunidades que vivem em
harmonia com a natureza sempre reconheceram
essa conexão, valorizando os ambientes naturais
como fontes de equilíbrio, cura e sentido de vida.
Quando esses ambientes se degradam por
desmatamento, poluição, mudanças climáticas ou
destruição de habitats, o impacto não se limita às
doenças físicas, mas também se manifesta como
sofrimento psicológico, ansiedade, tristeza e
desesperança. A perda de conexão com a Terra pode
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gerar sentimentos de luto, impotência e até transtornos psíquicos mais graves, refletindo a
importância de manter vínculos com o meio ambiente como estratégias de promoção do
bem-estar emocional (Makram et al., 2024).
Por outro lado, cultivar uma relação respeitosa e cuidada com a Natureza por meio de
práticas culturais, espirituais ou de autocuidado, como jardinagem, caminhadas em espaços
verdes ou atividades comunitárias ambientais funciona como uma poderosa fonte de
proteção emocional (Krenak, 2020). Essas ações ajudam a fortalecer a resiliência, a
esperança e o sentimento de pertencimento, essenciais para lidar com a ansiedade e o
medo diante das crises ambientais contemporâneas. Assim, a defesa dos direitos da
Natureza deixa de ser uma questão apenas ambiental ou política, e passa a ser uma
estratégia de promoção da saúde integral, promovendo o equilíbrio entre o indivíduo, a
comunidade e o planeta, garantindo o bem-estar das futuras gerações.
No entanto, enfrentar efetivamente os impactos psicológicos das mudanças climáticas exige
um esforço coordenado que ultrapasse ações individuais. É urgente fortalecer redes de
apoio, criar espaços de escuta, promover diálogos e implementar políticas públicas capazes
de promover justiça ambiental e saúde mental de forma integrada. Iniciativas como rodas de
conversa, grupos de apoio, práticas de autocuidado, ações ao ar livre e mobilizações
comunitárias têm papel fundamental nessa transformação, ajudando a transformar o medo e
a tristeza em ações concretas, solidariedade e esperança. Essas estratégias também
requerem que profissionais de saúde mental estejam preparados para atuar em contextos
de desastres climáticos, reconhecendo e acompanhando os prejuízos psicológicos
decorrentes desses eventos (Makram et al., 2024).
Para isso, é fundamental que haja uma profunda transformação na formação de profissões
tradicionais na área da saúde mental, como psicologia e psiquiatria. Essa formação deve
incorporar conhecimentos sobre os impactos ambientais na saúde mental, promover
habilidades em intervenção em crises coletivas ligadas às mudanças climáticas e estimular
o engajamento político e social dessas categorias na defesa da Natureza. Profissionais de
saúde mental precisam atuar não apenas na assistência clínica, mas também como aliados
na luta por políticas públicas que protejam o meio ambiente e promovam a justiça social.
Essa integração entre saúde mental e sustentabilidade é essencial para
construir uma sociedade mais resiliente, consciente e comprometida com a
preservação do planeta e o bem-estar das populações mais vulneráveis.
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Este artigo reafirma a complexa e profunda relação entre as mudanças climáticas e a saúde
mental, evidenciando que as ações humanas que provocam o aquecimento global não
afetam apenas o meio ambiente, mas também o bem-estar emocional das populações. Os
fenômenos de eco-ansiedade e solastalgia ilustram como o sofrimento psicológico é uma
resposta legítima às transformações ambientais, sendo agravado por fatores de
vulnerabilidade histórica e estrutural. Situações de desastres, como enchentes e queimadas,
revelam que o impacto emocional transcende a perda material, instaurando sentimentos de
luto, impotência, ansiedade e desesperança, especialmente entre grupos marginalizados e
comunidades tradicionais, que frequentemente possuem menor acesso a políticas de
assistência e suporte psicológico adequados.
A discussão evidencia também que as desigualdades sociais, raciais, de gênero, de classe
e de condição física exacerbam os efeitos psicossociais das mudanças climáticas. Essas
disparidades reforçam a necessidade de uma abordagem interseccional na formulação de
políticas públicas e práticas de atuação profissional. As populações mais vulneráveis, já
marcadas por sistemas de opressão, permanecem à margem das ações de mitigação e
adaptação, sofrendo de forma desproporcional os efeitos emocionais e físicos das crises
ambientais. Assim, é imperativo que as ações de enfrentamento às mudanças climáticas
também integrem a promoção da justiça social, reconhecendo a interdependência entre
saúde mental, direitos humanos e preservação ambiental.
Outro aspecto fundamental abordado neste trabalho é a necessidade de uma transformação
na formação dos profissionais de saúde mental, como psicólogos e psiquiatras. Esses
profissionais devem estar capacitados para atuar em contextos de desastre climático,
reconhecendo o impacto psicológico das mudanças ambientais e participando ativamente de
políticas e ações de defesa do meio ambiente. Promover a resiliência emocional, criar redes
de apoio e fortalecer espaços de diálogo e autocuidado são estratégias essenciais, que
pressupõem uma abordagem mais integrada e sensível às conexões entre natureza e saúde
mental.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por fim, é evidente que a luta contra os
efeitos psíquicos das mudanças
climáticas requer um esforço coletivo,
envolvendo não apenas profissionais de
saúde, mas também a sociedade civil,
organizações ambientais e o poder
político. A relação com a natureza deve
ganhar maior espaço na agenda social e
política, promovendo ações que
resgatem vínculos transformadores com
o ambiente natural e possibilitando o
desenvolvimento de uma cultura de
cuidado, solidariedade e
Somente assim será possível construir
uma sociedade mais resiliente, justa e
atenta às questões emocionais humanas
diante da crise ambiental global.
sustentabilidade.
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Anderson Ricardo Martins. Analista Judiciário/ Psicólogo do Tribunal de Justiça de Rondônia
desde 2013. Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia/ UNIR; Especialista
em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes pelo Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo/ IPUSP; Capacitado em Alienação Parental; Novo Código de
Processo Civil; Elaboração de Laudos e Pareceres, Escuta de crianças e adolescentes em
situação de violência, entre outros pelo PJRO.
Leandro Aparecido Fonseca Missiatto. Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade do Vale
do Rio dos Sinos (Unisinos), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia
(UNIR) com conclusão em 2017, e graduado em Psicologia pela Faculdade de Ciências
Biomédicas de Cacoal (Facimed) em 2012. Analista Processual na Especialidade de Psicologia
no Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia (TJRO). Membro da equipe de especialistas do
Programa Harmony With Nature das Nações Unidas (ONU). Professor do Programa de Pós-
Graduação Mestrado em Psicologia da Universidade Federal de Rondônia.
Douglas Antoni de Jesus Sousa. Graduado em Psicologia - Estácio FAP Faculdade de Pimenta
Bueno - RO (2024). Especialização em Saúde Pública com Ênfase em Saúde da Família (2024).
Instituto Nacional de Educação e Extensão (INEX). Especialização em Neuropsicologia (2024).
Faculdade Vales de Minas (EducaVales). Especialização em Psicologia do Desenvolvimento
(2024). Faculdade Vales de Minas (EducaVales). Especialização em Terapia Cognitivo
Comportamental (2024). Faculdade Anísio Teixeira (FAT). Especialização em Psicologia
Educacional e Escolar (2024). Instituto Ser Psicólogo. Facilitador em Justiça Restaurativa
(2024) pela Emeron. Exerceu o cargo de Diretor de Central Psicossocial da Educação -
Secretaria Municipal de Educação de Pimenta Bueno - SEMED. Coordenador do Comitê
Municipal de Gestão Colegiada da Rede de Cuidado e de Proteção Social das Crianças e dos
Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência (COMGECO).
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