ARTIGOS
LIGA DO BEM VIVER: CAMINHOS ANCESTRAIS PARA
UMA JUSTIÇA QUE CUIDA DA NATUREZA E DAS
PESSOAS
LIGA DO BEM VIVER: ANCIENT PATHS TO A JUSTICE
THAT CARES FOR NATURE AND PEOPLE
LIGA DEL BIEN VIVER: CAMINOS ANCESTRALES HACIA
UNA JUSTICIA QUE CUIDA DE LA NATURALEZA Y LAS
PERSONAS
Gunchorowski Cavalcante
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1 Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO). E-mail: elainecavalcante@tjro.jus.br
RESUMO
Este artigo apresenta a Liga do Bem Viver, uma iniciativa criada em 2023
por servidores do Fórum de Pimenta Bueno, Rondônia, que visa promover
práticas ancestrais de convivência harmoniosa com a Terra. Seu objetivo
é evidenciar como os princípios do Bem Viver, herdados de povos
indígenas, africanos, andinos e outras comunidades tradicionais, podem
orientar ações concretas de justiça, sustentabilidade e cuidado com a
Natureza, especialmente no contexto institucional. A reflexão será
conduzida por meio da descrição dos valores e princípios que sustentam a
Liga, como a ética biocêntrica, a interculturalidade e o trabalho coletivo,
além das ações práticas implementadas no Fórum, como hortas,
transporte sustentável, rodas de conversa e educação ambiental. Serão
analisados também os desafios enfrentados na mudança cultural,
sobretudo no âmbito das instituições públicas, bem como as estratégias
para superar obstáculos e consolidar essa abordagem transformadora. Ao
longo do texto, as reflexões buscarão demonstrar que o Bem Viver é uma
prática possível e necessária na construção de uma sociedade mais justa,
inclusiva e sustentável, e que sua implementação no serviço público
representa uma forma de promover uma justiça que cuida da Natureza e
das pessoas, com responsabilidade coletiva e respeito à diversidade.
Dessa forma, o artigo convida a repensar as formas de convivência e
gestão que possam facilitar a convivência harmônica entre humanidade e
meio ambiente.
Bem Viver; justiça socioambiental; saberes ancestrais; Palavras-chave:
sustentabilidade; cultura institucional.
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Revist a Bem Viver Compartilha ndo Sa beres, V. 1 , Nº 2 - Agosto a Dezem bro/20 24
ABSTRACT
This article introduces the Liga do Bem Viver, an initiative created in 2023 by staff from the
Pimenta Bueno Forum in Rondônia, aimed at promoting ancestral practices of harmonious
coexistence with the Earth. Its goal is to demonstrate how the principles of Bem Viver,
inherited from Indigenous, African, Andean, and other traditional communities, can guide
concrete actions of justice, sustainability, and care for Nature, especially within institutional
contexts. The discussion will be driven by a description of the values and principles
supporting the Liga, such as biocentric ethics, intercultural dialogue, and collective work, as
well as practical actions implemented at the Forum, including community gardens,
sustainable transportation, discussion circles, and environmental education. Challenges
faced in cultural change, particularly within public institutions, will also be analyzed, along
with strategies to overcome obstacles and solidify this transformative approach. Throughout
the text, reflections will aim to demonstrate that Bem Viver is a feasible and necessary
practice for building a more just, inclusive, and sustainable society. Implementing it within
public service is seen as a way to promote a justice that cares for Nature and people,
through collective responsibility and respect for diversity. The article invites a rethinking of
coexistence and management practices that facilitate harmonic living between humanity and
the environment.
Bem Viver; socio-environmental justice; ancestral knowledge; sustainability;
Keywords:
institutional culture.
RESUMEN
Este artículo presenta la Liga del Bien Viver, una iniciativa creada en 2023 por funcionaries
del Fórum de Pimenta Bueno en Rondônia, que busca promover prácticas ancestrales de
convivencia armónica con la Tierra. Su objetivo es evidenciar cómo los principios del Bien
Viver, heredados de comunidades indígenas, africanas, andinas y otras comunidades
tradicionales, pueden orientar acciones concretas de justicia, sostenibilidad y cuidado de la
Naturaleza, particularmente en el ámbito institucional. La reflexión se realizará a través de
una descripción de los valores y principios que sustentan la Liga, como la ética biocéntrica,
el diálogo intercultural y el trabajo colectivo, además de las acciones prácticas
implementadas en el Fórum, tales como huertos comunitarios, transporte sostenible, círculos
de diálogo y educación ambiental. También se analizarán los desafíos enfrentados en el
cambio cultural, especialmente en las instituciones públicas, junto con las estrategias para
superar obstáculos y consolidar este enfoque transformador. A lo largo del texto, las
reflexiones buscarán demostrar que el Bien Viver es una práctica factible y necesaria para
construir una sociedad más justa, inclusiva y sostenible. La implementación en el servicio
público se entiende como una forma de promover una justicia que cuida de la Naturaleza y
las personas, con responsabilidad colectiva y respeto por la diversidad. El artículo invita a
repensar las formas de convivencia y gestión que permitan una vida armónica entre la
humanidad y el medio ambiente.
Bien Viver; justicia socioambiental; saberes ancestrales; sostenibilidad; Palabras clave:
cultura institucional.
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INTRODUÇÃO
Este artigo apresenta a Liga do Bem Viver, uma
iniciativa criada em 2023 por servidores do
Tribunal de Justiça de Rondônia, no Fórum de
Pimenta Bueno, Rondônia, visando promover
práticas ancestrais de convivência harmoniosa
com a Terra. Seu objetivo é evidenciar como os
princípios do Bem Viver, herdados de povos
indígenas, africanos, andinos e outras
comunidades tradicionais, podem orientar ações
concretas de justiça, sustentabilidade e cuidado com a Natureza, especialmente no contexto
institucional.
A reflexão será conduzida por meio da descrição dos valores e princípios que sustentam a
Liga, como a ética biocêntrica, a interculturalidade e o trabalho coletivo, além das ações
práticas implementadas no Fórum, como hortas, transporte sustentável, rodas de conversa e
educação ambiental. Serão analisados também os desafios enfrentados na mudança
cultural, sobretudo no âmbito das instituições públicas, bem como as estratégias para
superar obstáculos e consolidar essa abordagem transformadora.
Ao longo do texto, as reflexões buscarão demonstrar que o Bem Viver é uma prática
possível e necessária na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável, e
que sua implementação no serviço público representa uma forma de promover uma justiça
que cuida da Natureza e das pessoas, com responsabilidade coletiva e respeito à
diversidade. Dessa forma, o artigo convida a repensar as formas de convivência e gestão
que possam facilitar a convivência harmônica entre humanidade e meio ambiente.
DESENVOLVIMENTO
A Liga do Bem Viver nasceu no início de 2023, organizada por servidores do Fórum de
Pimenta Bueno, Rondônia: Leandro Aparecido Fonseca Missiatto (psicólogo), Paula Jaruzo
dos Santos (administradora do Fórum) e Rejane de Souza Gonçalves Fraccaro (Juíza de
Direito). A Liga representa a continuidade de práticas milenares de Bem Viver, cultivadas
por povos andinos, indígenas, africanos, asiáticos e tantas outras comunidades que, ao
longo da história, ensinam a importância de uma relação harmoniosa e respeitosa com a
Terra (Cunha; Souza, 2023).
O Bem Viver é um legado ancestral, um conjunto de valores e saberes que afirmam a
interdependência de todas as formas de vida e o direito natural de que as espécies possam
existir e se perpetuar de geração em geração (Acosta, 2016).
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Mais do que um conceito, é uma maneira de viver,
reconhecendo que somos parte da Natureza e que nenhum
direito é maior do que o direito da vida de continuar existindo.
A Liga do Bem Viver, assim, segue passos que vieram de
longe e age a partir do Sagrado manifesto na Natureza,
inspirando-se em práticas circulares, não hierarquizadas, e
no diálogo entre culturas. Trata-se de uma proposta de
convivência cidadã, baseada na diversidade, na harmonia
com a Natureza e no reconhecimento dos saberes de
diferentes povos e tradições (Werá, 2024).
A partir dessa inspiração foi proposto ao Tribunal de Justiça
de Rondônia a formação de uma Liga com servidores(as) do
Fórum de Pimenta Bueno. Com a deliberação positiva do
presidente da instituição deu-se início o processo de
divulgação da Liga e o convite para integrá-la.
Princípios e valores da Liga
Trabalho coletivo: tudo é construído a muitas mãos, em
colaboração e escuta.
Acessibilidade e inclusão: todos e todas são convidados
a participar, independentemente de sua origem ou
condição.
Vivência do Bem Viver: o Bem Viver é praticado no
cotidiano, e não apenas discutido.
Sustentabilidade e transgeracionalidade: as ações
buscam o equilíbrio ecológico hoje e para as futuras
gerações.
Ética biocêntrica: a vida, em todas as suas formas, está
no centro das decisões.
Interculturalidade: o diálogo entre culturas é fonte de
aprendizado e respeito mútuo.
Natureza como sujeito de direitos: a Terra e seus
elementos são reconhecidos como portadores de direitos
próprios.
A Liga entende que somos todos Natureza, que fazemos
parte de uma grande casa coletiva, e temos o dever ético de
zelar para que a mãe de todas as vidas continue a gerar
filhos e filhas, membros futuros desse planeta.
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Ações concretas: Bem Viver no Fórum
Horta medicinal nas dependências do Fórum: resgate de saberes tradicionais e
promoção da saúde coletiva.
Transporte sustentável: incentivo ao deslocamento casa-trabalho a pé ou de bicicleta,
reduzindo a pegada ecológica.
Meditação e rodas de conversa: criação de espaços de sensibilização,
autoconhecimento e fortalecimento de vínculos entre servidores e comunidade.
Educação ambiental e sensibilização: ações voltadas à compreensão da Natureza como
sujeito de direitos e à valorização do trabalho coletivo.
No Fórum de Pimenta Bueno, a Liga do Bem Viver realiza ações cotidianas que evidenciam
como o Bem Viver pode ser vivenciado dentro de instituições públicas, muitas vezes
consideradas espaços burocráticos ou distantes da vida comunitária.
Entre as práticas implementadas estão:
Essas iniciativas mostram que a transformação social e ambiental pode (e deve) começar
dentro das próprias instituições, inspirando servidores e cidadãos a assumirem uma postura
mais consciente, ética e colaborativa. Todas as ações são catalogadas ao longo do ano e
apresentadas à comunidade judiciária em um relatório. Em grupo são planejadas ações que
serão executadas em plano de trabalho atualizado anualmente.
O desafio da cultura institucional e o caminho da persistência
Como toda ação transformadora, a Liga do Bem Viver enfrenta desafios, especialmente
relacionados à cultura institucional e ao engajamento das pessoas. Muitas vezes, a rotina
acelerada, o individualismo e a falta de reconhecimento da importância dessas práticas
dificultam a participação de mais servidores e usuários do Fórum. A cultura dominante,
marcada pela hierarquia, pelo foco em resultados imediatos e pela separação entre o campo
profissional e o ambiental, ainda representa um obstáculo.
No entanto, a Liga segue perseverando, entendendo que a mudança de cultura é um
processo gradual, que requer paciência, diálogo e exemplos práticos. Cada encontro, cada
muda plantada, cada reflexão coletiva é uma semente lançada para o futuro e a
experiência mostra que, com o tempo, o Bem Viver floresce e inspira novas adesões.
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A presença de iniciativas como a Liga do Bem Viver em instituições públicas mostra que é
possível, e necessário, repensar o papel do serviço público na promoção da justiça
socioambiental. O Fórum deixa de ser apenas um espaço de resolução de conflitos para se
tornar também um lugar de promoção da vida, da saúde, da inclusão e do respeito à
Natureza.
Além disso, a Liga demonstra a relevância do diálogo entre diferentes saberes científicos,
populares, ancestrais e da abertura para novas formas de convivência e gestão
institucional. É um convite para que outras instituições públicas, privadas e comunitárias
também busquem alternativas para viver o Bem Viver e defender a Natureza como sujeito
de direitos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Liga do Bem Viver reafirma que a justiça verdadeira só se realiza quando está a serviço
da vida, da dignidade e da continuidade das gerações. Ao resgatar saberes ancestrais,
praticar o cuidado com a Natureza e promover a inclusão social, a Liga deixa claro que
somos todos responsáveis pela construção de um mundo mais justo, sustentável e
harmônico. O Bem Viver não é uma utopia distante: é uma escolha cotidiana, possível aqui
e agora, em cada espaço da sociedade inclusive nos fóruns de justiça.
REFERÊNCIAS
ACOSTA, A. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo:
Autonomia Literária, 2016.
CUNHA, E. V.; SOUSA, W. J. O bem viver no Brasil: uma análise da produção acadêmica
nacional. Revista Katálysis, v. 26, n. 2, p. 321332, 2023. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/rk/a/TBscbCdnTy6rjhbGqgfPfDB/. Acesso em: 15 mai. 2023.
WERA, K. Tekoá: uma arte milenar indígena para o bem-viver. Rio de Janeiro:
BestSeller, 2024.
Elaine Gunchorowski Cavalcante. Técnica Judiciária do Tribunal de Justiça do Estado de
Rondônia. Conciliadora e Mediadora Judicial formada pela Escola da Magistratura do Estado de
Rondônia. Especialista em Direito Processual Civil, pela Faculdade Internacional Signorelli,
FISIG/RJ. Bacharela em Direito pela Faculdade Unesc, Cacoal/RO (2010).
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