Eu sou Elenice Sakyrabiar, tenho 20 anos e sou uma orgulhosa representante do povo
Sakyrabiar (ou Sakurabiat). Minha cultura e tradições estão profundamente entrelaçadas
com minhas raízes familiares. Sou filha de Olímpio Sakyrabiar e Margareth Makurap. Minha
mãe, embora tenha partido, permanece viva em minhas lembranças e na história da nossa
família.
Vivo na terra indígena Rio Mequens, na Aldeia Koopi, localizada no estado de Rondônia.
Meus avós paternos, Vicência Sakyrabiar e o grande pajé Aipere Koopi Sakyrabiar, são
figuras emblemáticas na minha vida. O meu avô Aipere Koopi, reconhecido por sua
sabedoria e conexão espiritual com a terra, é lembrado como um líder que guiou nosso povo
com conhecimento ancestral.
Por outro lado, meus avós maternos, Mariza Gomes Makurap e Severino Sakyrabiar,
também contribuíram para a formação da minha identidade. Minha avó materna, Mariza, é
parte do povo Makurap, uma etnia que carrega suas próprias lutas e conquistas. Hoje, os
Makurap são reconhecidos como guerreiros que fazem parte da nossa história coletiva.
Suas experiências e resiliência enriquecem o tecido cultural do nosso povo.
Sou apaixonada por escrever histórias, especialmente sobre os acontecimentos do meu
povo. Essa parte de mim resolvi revelar para buscar mais conhecimento e visibilidade para o
meu povo. Embora sejamos poucos, carregamos grandes lutas e histórias que merecem ser
contadas.
Atualmente, busco reviver e resgatar aspectos da língua materna do meu povo. Embora eu
fale apenas palavras isoladas devido à perda gradual dos anciãos conhecedores da língua,
estou comprometida em manter viva essa parte essencial da nossa cultura.
Assim, minha história é um reflexo de resiliência e dedicação à herança cultural que me foi
transmitida. Continuo a honrar meus ancestrais e a contribuir para o fortalecimento da
identidade do meu povo.
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C O N T O
Revis t a Bem Viver Co m partilhando Sab eres, V. 2, Nº 1 - Janeiro a J unho/2025
Elenice Sakyrabiar
A CASINHA À BEIRA DO RIACHO
THE LITTLE HOUSE BY THE CREEK
LA PEQUEÑA CASA JUNTO AL RÍO
BIOGRAFIA
I am Elenice Sakyrabiar, I am 20 years old and a proud
representative of the Sakyrabiar (or Sakurabiat) people. My culture
and traditions are deeply intertwined with my family roots. I am the
daughter of Olímpio Sakyrabiar and Margareth Makurap. Although
my mother has passed away, she remains alive in my memories and
in the history of our family.
I live on the Rio Mequens Indigenous Land, in Koopi Village, located
in the state of Rondônia. My paternal grandparents, Vicência
Sakyrabiar and the great shaman Aipere Koopi Sakyrabiar, are
emblematic figures in my life. My grandfather Aipere Koopi, known
for his wisdom and spiritual connection to the land, is remembered
as a leader who guided our people with ancestral knowledge.
On the other hand, my maternal grandparents, Mariza Gomes
Makurap and Severino Sakyrabiar, also contributed to shaping my
identity. My maternal grandmother, Mariza, is part of the Makurap
people, an ethnic group with its own struggles and achievements.
Today, the Makurap are recognized as warriors who are part of our
collective history. Their experiences and resilience enrich the
cultural fabric of our people.
I am passionate about writing stories, especially about the events of
my people. I decided to reveal this part of myself to seek more
knowledge and visibility for my people. Although we are few in
number, we carry great struggles and stories that deserve to be told.
Currently, I seek to revive and recover aspects of my people's
mother tongue. Although I speak only isolated words due to the
gradual loss of the elders who knew the language, I am committed to
keeping this essential part of our culture alive.
Thus, my story is a reflection of resilience and dedication to the
cultural heritage that has been passed on to me. I continue to honor
my ancestors and contribute to strengthening the identity of my
people.
80 Revis t a Bem Viver Co m partilhando Sa b eres, V. 2, Nº 1 - Janeiro a J unho/2025
BIOGRAPHY
Soy Elenice Sakyrabiar, tengo 20 años y soy una orgullosa
representante del pueblo Sakyrabiar (o Sakurabiat). Mi cultura y
tradiciones están profundamente entrelazadas con mis raíces
familiares. Soy hija de Olímpio Sakyrabiar y Margareth Makurap. Mi
madre, aunque ya no está, permanece viva en mis recuerdos y en la
historia de nuestra familia.
Vivo en la tierra indígena Río Mequens, en la Aldea Koopi, ubicada
en el estado de Rondônia. Mis abuelos paternos, Vicência
Sakyrabiar y el gran chamán Aipere Koopi Sakyrabiar, son figuras
emblemáticas en mi vida. Mi abuelo Aipere Koopi, reconocido por su
sabiduría y conexión espiritual con la tierra, es recordado como un
líder que guió a nuestro pueblo con conocimiento ancestral.
Por otro lado, mis abuelos maternos, Mariza Gomes Makurap y
Severino Sakyrabiar, también contribuyeron a la formación de mi
identidad. Mi abuela materna, Mariza, es parte del pueblo Makurap,
un grupo étnico que lleva consigo sus propias luchas y conquistas.
Hoy en día, los Makurap son reconocidos como guerreros que
forman parte de nuestra historia colectiva. Sus experiencias y
resiliencia enriquecen el tejido cultural de nuestro pueblo.
Me apasiona escribir historias, especialmente sobre los
acontecimientos de mi pueblo. Decidí mostrar esta parte de mí para
buscar más conocimiento y visibilidad para mi pueblo. Aunque
somos pocos, llevamos grandes luchas e historias que merecen ser
contadas.
Actualmente, busco revivir y rescatar aspectos de la lengua materna
de mi pueblo. Aunque sólo hablo palabras aisladas debido a la
pérdida gradual de los ancianos conocedores de la lengua, estoy
comprometida a mantener viva esta parte esencial de nuestra
cultura.
Así, mi historia es un reflejo de resiliencia y dedicación a la herencia
cultural que me fue transmitida. Sigo honrando a mis antepasados y
contribuyendo al fortalecimiento de la identidad de mi pueblo.
Revis t a Bem Viver Co m partilhando Sab eres, V. 2, Nº 1 - Janeiro a J unho/2025
BIOGRAFÍA
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Era uma noite tranquila quando meu marido e eu decidimos nos mudar para
uma pequena casinha à beira do riacho na minha aldeia. O lugar era
encantador, cercado pela natureza exuberante e com o som suave das
águas correndo. Mal sabíamos que aquele cenário idílico guardava
segredos profundos.
Nos primeiros dias, tudo parecia perfeito. Porém, logo meu marido
começou a relatar algo inquietante. Ele acordava à noite com o som de
vozes e gargalhadas ecoando na escuridão, como se uma festa estivesse
acontecendo nas margens do riacho. Eu, por outro lado, não ouvia nada.
Ele tentava me convencer de que era real, mas eu achava que eram
apenas os ecos da natureza.
Certa madrugada, ele se levantou decidido a descobrir a origem daqueles
sons. Com o coração acelerado, ele caminhou até o riacho. A lua cheia
refletia na água, criando uma atmosfera mística e ao mesmo tempo
aterrorizante. Enquanto ele se aproximava da beira, as vozes pareciam se
intensificar, risadas infantis misturadas a murmúrios desconhecidos.
Desesperado, ele chamou por mim, mas eu ainda não conseguia ouvir nada
além dos sons normais da floresta noturna. Ele voltou para casa pálido e
tremendo. Elenice, disse ele com a voz trêmula, são espíritos... Espíritos
dos indígenas que viveram aqui antes de nós.
Naquela noite, ele decidiu pesquisar mais sobre a história e descobriu que
muitos que dormiam na aldeia próxima também ouviam os mesmos sons.
Eram relatos de visitantes que não conseguiam escapar das vozes dos
antigos moradores da terra almas inquietas que ainda celebram suas
vidas à beira do riacho.
Mas havia algo que meu marido não sabia: eu não ouvia aquelas vozes
porque era dali. Eu morava ali há muito tempo com minha família e meu
espírito também estava no meio deles; isso se devia ao fato de sermos
netos de um pajé. Para mim, aquelas risadas eram familiares e
acolhedoras.
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A CASINHA À BEIRA DO RIACHO
Com o passar do tempo, meu marido começou a se acostumar com os sons
noturnos. Ele percebeu que os espíritos não eram perigosos; eles apenas
queriam se divertir e celebrar à beira do riacho, como sempre fizeram em
vida. As gargalhadas tornaram-se parte da nossa rotina noturna.
Hoje vivemos em harmonia na casinha à beira do riacho. Os espíritos são
do bem e nos observam; eles sabem que um dia também nos divertiremos
e celebraremos com eles nas margens daquele mesmo riacho onde as
risadas ecoam eternamente sob a luz da lua cheia.
E assim é minha história: um lembrete de que algumas almas nunca
deixam de dançar e celebrar; elas permanecem entre nós, esperando pelo
dia em que nos reuniremos para compartilhar risadas e alegria novamente.
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