ARTIGOS
COMUNIDADE TRADICIONAL PAULO LEAL: GERAÇÕES
QUE RESISTEM À SECULAR EXPLORAÇÃO DA
AMAZÔNIA
TRADITIONAL PAULO LEAL COMMUNITY: GENERATIONS
RESISTING THE CENTURIES-OLD EXPLOITATION OF
THE AMAZON
COMUNIDAD TRADICIONAL PAULO LEAL:
GENERACIONES QUE RESISTEN A LA SECULAR
EXPLOTACIÓN DE LA AMAZONÍA
Solange Struwka1
RESUMO
O objetivo deste artigo é analisar a história e a resistência da Comunidade
Tradicional Paulo Leal, frente à exploração e às violações de direitos na
Amazônia. A partir de entrevistas e atividades coletivas feitas com os
moradores, percorremos na história da Comunidade Paulo Leal que se
confunde com a própria história da Amazônia brasileira e seus intricados
processos de exploração como: a construção da Ferrovia Madeira-
Mamoré, os ciclos da borracha e a implantação da Usina Hidrelétrica
Santo Antônio e o avanço da fronteira agrícola. Os resultados evidenciam
a luta contínua dos moradores contra a degradação ambiental, a
desterritorialização, e a expropriação de suas terras, além das perdas
econômicas e históricas provocadas por grandes projetos de infraestrutura
e colonização efetivados pela elite externa à região, apoiada pelo Estado.
As conclusões destacam a necessidade urgente de reparação histórica e
reconhecimento formal da comunidade como um espaço de resistência
cultural, bem como a importância de políticas públicas que garantam seus
direitos territoriais e promovam a preservação de sua memória e
identidade social.
comunidade tradicional; memória; resistência; Palavras-chave:
Geraldo Lima2
1 Universidade Federal de Rondônia (UNIR). E-mail: solange.struwka@unir.br
Universidade Federal de Rondônia (UNIR). E-mail: leandro.missiatto@unir.br
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Leandro Aparecido Fonseca Missiatto3
Liderança da Comunidade Tradicional Paulo Leal
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Revista B em Viver Compartil hando Sab eres, V. 2, Nº 1 - Janeiro a Junho/2 025
exploração
da Amazônia; direitos territoriais.
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ABSTRACT
The objective of this article is to analyze the history and resistance of the Traditional
Community Paulo Leal, in the face of exploitation and human rights violations in the Amazon.
Through interviews and collective activities with the residents, we trace the history of the
Paulo Leal Community, which is intertwined with the very history of the Brazilian Amazon
and its complex processes of exploitation, such as the construction of the Madeira-Mamoré
Railway, the rubber cycles, the implementation of the Santo Antônio Hydroelectric Plant, and
the expansion of the agricultural frontier. The results highlight the continuous struggle of the
residents against environmental degradation, dispossession, and the expropriation of their
lands, as well as the economic and historical losses caused by large infrastructure and
colonization projects carried out by external elites, supported by the State. The conclusions
emphasize the urgent need for historical reparation and formal recognition of the community
as a space of cultural resistance, as well as the importance of public policies that guarantee
their territorial rights and promote the preservation of their memory and social identity.
traditional community; memory; resistance; exploration of the Amazon; Keywords:
RESUMEN
El objetivo de este artículo es analizar la historia y la resistencia de la Comunidad
Tradicional Paulo Leal, frente a la explotación y a las violaciones de derechos en la
Amazonía. A partir de entrevistas y actividades colectivas realizadas con los habitantes,
recorremos la historia de la Comunidad Paulo Leal, que se confunde con la propia historia
de la Amazonía brasileña y sus intrincados procesos de explotación, como la construcción
del Ferrocarril Madeira-Mamoré, los ciclos del caucho y la implantación de la Central
Hidroeléctrica Santo Antônio, así como el avance de la frontera agrícola. Los resultados
evidencian la lucha continua de los habitantes contra la degradación ambiental, la
desterritorialización y la expropiación de sus tierras, además de las pérdidas económicas e
históricas provocadas por grandes proyectos de infraestructura y colonización realizados por
la élite externa a la región, apoyada por el Estado. Las conclusiones destacan la necesidad
urgente de reparación histórica y reconocimiento formal de la comunidad como un espacio
de resistencia cultural, así como la importancia de políticas públicas que garanticen sus
derechos territoriales y promuevan la preservación de su memoria e identidad social.
comunidad tradicional; memoria; resistencia; explotación de la Amazonía; Palabras clave:
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territorial rights.
derechos territoriales.
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A Comunidade Tradicional Paulo Leal, situada a 23 quilômetros da capital de Rondônia,
Porto Velho, emerge como um exemplo significativo da ocupação e da resistência cultural
na Amazônia. A história dessa comunidade está intimamente ligada à construção da
Ferrovia Madeira-Mamoré, uma das mais importantes infraestruturas do início do século XX,
simbolizando tanto a exploração econômica da região quanto a luta dos trabalhadores que a
construíram. Ao longo do tempo, a comunidade enfrentou diversas transformações
socioeconômicas, refletindo as complexas dinâmicas de interação entre o homem e a
natureza, e as tensões decorrentes das políticas colonizatórias e do desenvolvimento
econômico.
Este artigo resulta das atividades realizadas pelo projeto de extensão Registrar a Memória
de quem faz a história: práxis da Psicologia Social junto a Comunidades, Povos e Coletivos
da Amazônia, desenvolvido pelo Departamento de Psicologia da Universidade Federal de
Rondônia (DEPSI/UNIR). O que apresentamos, são registros valiosos da história de
Rondônia não apenas porque preserva as memórias coletivas da Comunidade Paulo Leal,
mas especialmente por tornar evidente a resistência de uma comunidade tradicional frente
às políticas colonizadoras que ainda vigoram no estado.
Assim, a análise da realidade dessa comunidade fornece ideias valiosas sobre as
estratégias de resistência cultural e a importância da educação e do reconhecimento dos
direitos territoriais. Além disso, o artigo procura destacar como grandes empreendimentos,
como a construção de hidrelétricas e a expansão da fronteira agrícola, impactam
negativamente o modo de vida dos moradores. Ao trazer à tona a realidade de Paulo Leal,
buscamos contribuir para um debate mais amplo sobre justiça social, direitos humanos e a
preservação das culturas tradicionais em um contexto de crescimento econômico e
predação ambiental. Portanto, este artigo se propõe a aprofundar o entendimento sobre a
memória coletiva da comunidade e a luta por sua preservação diante da ameaças
contemporâneas.
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INTRODUÇÃO
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A metodologia usada para fazer este artigo foi focada em entender a experiência dos
moradores da Comunidade Tradicional Paulo Leal. As técnicas utilizadas incluem:
METODOLOGIA
1. Entrevistas: foram realizadas entrevistas com moradores
da comunidade, neste artigo analisamos os relatos de dona
Maria e seu Geraldo, filhos dos primeiros moradores da
comunidade e guardiões da memória oral do território. Seu
Geraldo, além de ser guardião da memória e história da
comunidade protagoniza as lutas por reconhecimento e
contra a diferentes formas de asfixia impostas aos
moradores do território. Em razão deste trabalho de guardião
da memória oral, Geraldo consta como autor deste artigo em
que a transcrevemos para a linguagem escrita. As
entrevistas foram semiestruturadas, além de registros
produzidos a partir de conversas informais no decorrer das
atividades de campo, o que ajudou as(os) participantes a se
sentirem à vontade para falar sobre suas vidas e como as
mudanças na região os afetaram.
2. Observação: participamos nos finais de semana do
cotidiano da comunidade. Isso possibilitou observar de perto
como as pessoas se relacionam e como suas tradições
culturais são vividas no dia a dia.
3.Análise de documentos: foram analisados documentos
importantes, como laudos e registros históricos, provenientes
de instituições como o Ministério Público do Trabalho. Essa
análise ajudou a entender melhor a história da comunidade e
os efeitos das decisões governamentais na vida local.
Essas diferentes abordagens usadas juntas permitiram uma
compreensão mais completa da Comunidade Paulo Leal e
das mudanças que as(os) moradoras(es) enfrentam em seu
cotidiano.
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A vinte e três quilômetros da capital do estado de Rondônia, na estrada sentido à Vila Nova
Teotônio, está localizada a comunidade tradicional Paulo Leal. Ao chegar ao povoado, já à
primeira vista, o território anuncia que ali resiste parte significativa da história da região. Do
lado esquerdo da estrada, a capela dá indícios da longa data de ocupação (Foto 1). Do
outro lado, encontra-se um cemitério. Em conversa com os moradores, compreendemos que
ele é um anexo do antigo, aquele que acolheu os corpos cansados dos trabalhadores
ferroviários, em sua maioria negros, e de seus familiares (Foto 2). A estrada em que
pisávamos fora desviada, cortando-o ao meio. A parte restante deste espaço sagrado foi
violada pelo fazendeiro pecuarista das terras ao lado. Há dois anos, sem escrúpulos ou
qualquer respeito, o sujeito passou a grade por cima do local, violando a história da região e
a memória dos entes queridos do povoado. Essa é mais uma das expressões de como esta
comunidade vem sendo tratada nas últimas décadas.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Figura 1 Capela Santa Terezinha, Comunidade Tradicional
Paulo Leal, 2024.
Fonte: Fabiany Nery Araújo.
Figura 2 Cemitério da Comunidade Tradicional Paulo Leal,
2024.
Fonte: Fabiany Nery Araújo.
Alguns passos adiante, deparamo-
nos com um complexo centenário
que envolve os trilhos dos trens,
locomotivas, seis casas enfileiradas,
construídas em um mesmo padrão
arquitetônico (Foto 3), uma
imponente caixa d'água (Foto 4)
usada como um dos elementos na
gerão de propulsão dos motores a
vapor das marias-fumaças e
vestígios das linhas telegráficas da
Comissão de Rondon. Entremeado a
isso, a mais avançada produção
tecnológica da lógica capitalista
atuou a força da Natureza. A
floresta, que fora rasgada para dar
passagem aos trilhos, hoje se
entrelaça entre a maquinaria. A
frondosa mangueira nascida entre os
vagões indica as décadas sem
atividade da ferrovia (Foto 5). Este
poderia ser um genuíno exemplo da
distopia amazônica do início do
século passado. Trilhos e vagões,
linhas telegráficas e outras ferragens
se entrelaçam com a floresta e
camuflam os vestígios dessa longa
história. Na memória dos antigos
moradores da vila, ainda ecoa o som
do apito que anunciava a parada do
trem, carregado de passageiros e
mercadorias, o vai e vem dos
trabalhadores que garantiam o abas-
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tecimento de lenha e água e o intenso
movimento de trocas na comunidade.
O cenário é um relevante registro
histórico - a céu aberto - de Porto
Velho e dos diferentes momentos da
ocupação da região Amazônica. Ali se
impôs a implementação das mais
importantes tecnologias urbanas do
início do século passado a rede
ferroviária a vapor que ligava Brasil e
Bolívia, finalizada em 1907, e as linhas
telegráficas que buscavam conectar o
Rio de Janeiro ao Amazonas (1906-
1909) (Silva; Alcântara, 2021). Também
nos indica o descaso dos órgãos
públicos com a memória do povo
trabalhador do estado; incontáveis
foram aqueles que deram suas vidas
para garantir que os 615 mil dormentes
montassem os 366 quilômetros da rede
ferroviária (Souza, 2023). São
memórias dos outros tantos que
trabalharam, ano após ano, para que
toda essa infraestrutura funcionasse
(Craig, 1947). Ademais, evidencia que
são os esforços da comunidade que
ainda mantém o local conservado e a
história viva. Essa adverte aos
apressados ou ignorantes sobre a
importância do território: Bem-vindos à
Comunidade Paulo Leal desde 1958
aqui tem história, lemos na inscrição da
placa (Foto 6).
Apesar da inscrição remeter a 1958, o
icio da comunidade data de cinquenta
anos antes, em 1907 a 1912, com o
início das atividades da Ferrovia
Madeira-Mamoré. O período foi
marcado pelo fim da guerra entre Brasil
e Bolívia e a assinatura do Tratado de
Petrópolis, que acordou a construção
desta linha de conexão da Bolívia ao
oceano Atlântico em troca da anexação
do Acre pelo governo brasileiro (Marta,
2018). A economia da região era então
movimentada pelo primeiro ciclo da
borracha e pelo trabalho de servidão
nos seringais. Este período foi de
intenso fluxo de migrantes de dentro e
fora do país (Trubiliano, 2017).
Figura 3 asas de um mesmo padrão
arquitetônica, construídas em 1907 para as
famílias dos trabalhadores da ferrovia, 2024.
Fonte: Fabiany Nery Araújo.
Figura 4 Caixa dágua construída em 1907
para abastecer as locomotivas, 2024
Fonte: Fabiany Nery Araújo.
Figura 5 Trilhos do trem e mangueira, 2024.
Fonte: Fabiany Nery Araújo.
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Dona Maria e seu Geraldo, moradores da comunidade e descendentes de trabalhadores da
seringa e da estrada de ferro, explicam que a cada 25 quilômetros a Maria-Fumaça
precisava parar para ser resfriada com água. Ali, encontrava-se a primeira parada após a
saída de Porto Velho, com destino a Guajará-Mirim, na fronteira com a Bolívia. Àquela
época, a estação era chamada de Teotônio, devido à cachoeira que ficava a 9 km dali. Este
período da história ainda é relembrado à medida que algumas pessoas identificam esta
comunidade como Km 25, fazendo referência à quilometragem dos trilhos. De acordo com
os autos do laudo pericial 166/2023, realizado pelo Ministério Público Federal sobre a
comunidade, a presença das famílias na localidade remete a pelo menos cem anos e oito
gerões.
Os moradores narram que a mudança de nome da comunidade ocorreu na década de
cinquenta, período do segundo ciclo da borracha e da retomada das atividades da Estação
Ferroviária Madeira-Mamoré. Este período foi caracterizado pela implantação de políticas
governamentais voltadas às colônias agrícolas e ao fim do segundo ciclo da borracha
(Santos, 2014). Seu Geraldo explica com entusiasmo que as colônias agrícolas foram
pensadas para viabilizar a produção de alimentos por aqueles que já formavam as
comunidades ao longo da ferrovia.
Nesta localidade, foi criado o lote 5 na gleba C, onde os moradores da comunidade vivem, e
os lotes 4 e 7 na gleba D, que também integram parte do complexo centenário. Contudo, o
projeto não foi efetivado como prometido, impossibilitando a posse e a titulação dos lotes
para os referidos moradores. Seu Geraldo acrescenta, com pesar, que nas décadas
seguintes os lotes 4 e 7 que eram da União foram doados a terceiros, sem nenhuma
Figura 5 Placa localizada no início da comunidade, 2024.
Fonte: Fabiany Nery Araújo.
vin-
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culação com o território. Esses desdobramentos fazem parte do Projeto de Colonização Alto
Madeira, uma das políticas dos anos de chumbo impostas pela ditadura empresarial-militar
(Cunha; Moser, 2010). Vale destacar que esse período também foi marcado por intensos
movimentos migratórios, com um grande contingente de pessoas vindas do Nordeste e do
Sul do Brasil, induzidas pelo chamado do governo. O lema da época era: terras sem
homens para homens sem terra (Lacerda, 2013). A trágica ironia é que aqueles que ali
viviam não foram reconhecidos como dignos da posse do território que manejavam.
Seu Geraldo e Dona Maria afirmam que são da quarta geração de pessoas libertas após a
escravidão. Na Amazônia, seus antepassados estiveram sob a imposição da servidão do
trabalho nas grandes plantações de seringa. A família mudou-se para a comunidade quando
ainda eram crianças, ele com apenas um ano. Acompanharam as várias transformações no
território e hoje lutam para que o trabalho, a história e a memória de seus antepassados não
sejam apagadas. Reivindicam que as famílias que ali residem não continuem sendo
expropriadas e que ocorra o reconhecimento da preservação daqueles bens tão importantes
para a região. A necessidade desse reconhecimento foi comprovada pelo já citado laudo,
realizado pelo Ministério Público Federal. Ao considerar a riqueza histórica e geográfica do
território, o estudo antropológico ratifica a necessidade do reconhecimento da comunidade
como Comunidade Tradicional.
Durante o acompanhamento do cotidiano da comunidade, foi possível identificar alguns
conflitos e enfrentamentos que os moradores vêm travando nas últimas décadas. Um dos
mais marcantes da década passada foi, sem dúvida, a construção da barragem da Usina
Hidrelétrica Santo Antônio. Depois da finalização das atividades na estrada de ferro, as
famílias da Comunidade Paulo Leal passaram a ter como principal atividade a produção de
alimentos em pequenas áreas próximas às residências, a pesca artesanal na cachoeira
Teotônio e a comercialização de alimentos para visitantes da cachoeira (Junior et al., 2023).
Essas duas últimas atividades econômicas foram totalmente destruídas com o alagamento
da cachoeira e a inundação das áreas próximas, decretando o fim deste importante ponto
turístico (Belforte; Cavalcante, 2021). Essas mudanças geradas pelo empreendimento
fizeram com que o rio não tivesse mais peixes e a comunidade deixasse de receber
visitantes.
Além disso, devido à formação do lago, ocorreu a desterritorialização dos moradores da Vila
Teotônio, que passaram a ficar mais distantes, dificultando o acesso a pé ou de bicicleta,
como era feito antes. O intenso fluxo de pessoas e transporte público também cessou. Após
a construção da barragem e a implementação da Nova Vila de Teotônio, realizada pelo
empreendimento, a histórica Escola Visconde de Mauá da Comunidade Paulo Leal foi
fechada. Em desacordo com os interesses das famílias, as crianças têm ido à escola
Augusto Vasconcelos, localizada na Nova Vila de Teotônio.
Outra importante mudança foi a intensa proliferação de mosquitos e mutucas no território.
Os relatos apontam a necessidade de se fechar em casa para não ser picado pelos
insetos, o que resulta em alergias, interfere no desenvolvimento dos trabalhos e na
sociabilidade dos moradores. Apesar dos impactos, e embora estejam localizados a 3
quilômetros do primeiro ponto de alagado produzido pela construção da barragem, os
moradores da Comunidade Paulo Leal não foram reconhecidos pela empresa como
atingidos, o que impediu o recebimento de qualquer tipo de reparação pelas perdas sofridas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
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Além disso, os moradores têm sido asfixiados
pelos fazendeiros que plantam soja nas áreas ao
redor da comunidade. As estratégias utilizadas
pelos fazendeiros são diversas: invasão das áreas
coletivas da comunidade, destruição de espaços
sagrados, como o cemitério, represamento da
água que circulava pelo igarapé e despejo de
agrotóxicos na comunidade. Os relatos
apresentam um cenário de recorrentes violações
de direitos, que resultam na descaracterização de
lugares históricos, perda de trabalho e renda,
adoecimento e saída forçada dos moradores da
comunidade, adoecimento e morte de animais e
plantas, entre outros. O que observamos, mais
uma vez, é a imposição dos projetos colonizadores
da região, agora expressos nos grandes
empreendimentos hidrelétricos e no agronegócio -
que utiliza alta tecnologia para a produção de soja.
Novamente, usam a ideologia do
desenvolvimento e do progresso para expulsar
as famílias dos territórios que dão lugar a desertos
de soja, produzida para alimentar os lucros de
quem nem aqui vive.
Em conclusão, a Comunidade Tradicional Paulo
Leal é um exemplo de resistência frente à
exploração, opressão e à marginalização dos
povos e comunidades da Amazônia. A história, rica
e complexa, reflete as lutas de gerações que se
opõem aos projetos de colonização, efetivadas
pelo capitalismo, e ao apagamento de suas
memórias e direitos. O reconhecimento da
comunidade como um espaço de valor histórico e
cultural é essencial para a preservação de sua
identidade social e para a luta por reparação
histórica, justiça social e territorial. A proteção dos
direitos dos moradores deve ser uma prioridade a
fim de garantir a continuidade de sua cultura e a
manutenção de seu território, que simboliza a
memória e a luta dos que vieram antes deles. A
história da Comunidade Paulo Leal é um convite à
reflexão sobre as implicações dos projetos de
desenvolvimento e progresso, assim como às
consequências dessas ações para os povos,
comunidades e bioma da Amazônia.
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Geraldo Lima. Filho dos primeiros moradores da comunidade, guardião da memória oral do
território e protagonista das lutas por reparação e reconhecimento da comunidade.
Leandro Aparecido Fonseca Missiatto. Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade do Vale
do Rio dos Sinos (Unisinos), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Rondônia
(UNIR) com conclusão em 2017, e graduado em Psicologia pela Faculdade de Ciências
Biomédicas de Cacoal (Facimed) em 2012. Analista Processual na Especialidade de Psicologia
no Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia (TJRO). Membro da equipe de especialistas do
Programa Harmony With Nature das Nações Unidas (ONU). Professor do Programa de Pós-
Graduação Mestrado em Psicologia da Universidade Federal de Rondônia.
Solange Struwka. Doutora e mestre pelo Programa de Psicologia Social do Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Graduada em Psicologia e Pedagogia pela
Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). É professora adjunta da graduação e da
pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Integra o Grupo
Amazônico de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Educação (GAEPPE).
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